Projeto: Contos dos Irmãos Grimm — leitura, imaginação e aprendizagem
1. Introdução
Os contos dos Irmãos Grimm fazem parte da tradição oral e literária mundial. Suas histórias atravessaram gerações e continuam despertando a imaginação de crianças, adolescentes, jovens e adultos.
Por meio de personagens marcantes, acontecimentos fantásticos, desafios, perigos, escolhas difíceis e finais simbólicos, esses contos favorecem o trabalho com leitura, oralidade, interpretação, produção textual, criatividade e reflexão sobre valores humanos.
Este projeto propõe o estudo de contos dos Irmãos Grimm, com atividades adaptadas para diferentes etapas da Educação Básica, respeitando a faixa etária dos estudantes e ampliando gradualmente a profundidade das leituras e discussões.
Os contos dos Irmãos Grimm fazem parte da tradição oral e literária mundial. Suas histórias atravessaram gerações e continuam despertando a imaginação de crianças, adolescentes, jovens e adultos.
Por meio de personagens marcantes, acontecimentos fantásticos, desafios, perigos, escolhas difíceis e finais simbólicos, esses contos favorecem o trabalho com leitura, oralidade, interpretação, produção textual, criatividade e reflexão sobre valores humanos.
Este projeto propõe o estudo de contos dos Irmãos Grimm, com atividades adaptadas para diferentes etapas da Educação Básica, respeitando a faixa etária dos estudantes e ampliando gradualmente a profundidade das leituras e discussões.
2. Justificativa
A literatura é uma importante ferramenta de formação humana, cultural e social. Os contos clássicos, especialmente os contos maravilhosos, possibilitam ao estudante entrar em contato com diferentes formas de narrar, imaginar, interpretar e compreender o mundo.
Os contos dos Irmãos Grimm apresentam temas como coragem, medo, justiça, inveja, ambição, solidariedade, família, superação, amadurecimento e consequências das escolhas. Por isso, podem ser trabalhados em diferentes anos escolares, com abordagens adequadas à idade dos estudantes.
O projeto também contribui para o desenvolvimento da leitura fluente, da escuta atenta, da oralidade, da escrita, da análise de personagens, da comparação entre versões e da produção criativa.
A literatura é uma importante ferramenta de formação humana, cultural e social. Os contos clássicos, especialmente os contos maravilhosos, possibilitam ao estudante entrar em contato com diferentes formas de narrar, imaginar, interpretar e compreender o mundo.
Os contos dos Irmãos Grimm apresentam temas como coragem, medo, justiça, inveja, ambição, solidariedade, família, superação, amadurecimento e consequências das escolhas. Por isso, podem ser trabalhados em diferentes anos escolares, com abordagens adequadas à idade dos estudantes.
O projeto também contribui para o desenvolvimento da leitura fluente, da escuta atenta, da oralidade, da escrita, da análise de personagens, da comparação entre versões e da produção criativa.
3. Público-alvo
O projeto pode ser adaptado para:
- Educação Infantil;
- anos iniciais do Ensino Fundamental;
- anos finais do Ensino Fundamental;
- Ensino Médio.
O projeto pode ser adaptado para:
- Educação Infantil;
- anos iniciais do Ensino Fundamental;
- anos finais do Ensino Fundamental;
- Ensino Médio.
4. Objetivo geral
Promover o contato dos estudantes com contos dos Irmãos Grimm, desenvolvendo o gosto pela leitura, a imaginação, a oralidade, a interpretação textual, a produção escrita e a reflexão sobre os valores presentes nas narrativas.
Promover o contato dos estudantes com contos dos Irmãos Grimm, desenvolvendo o gosto pela leitura, a imaginação, a oralidade, a interpretação textual, a produção escrita e a reflexão sobre os valores presentes nas narrativas.
5. Objetivos específicos
- Conhecer alguns contos dos Irmãos Grimm.
- Desenvolver a escuta, a leitura e a interpretação de textos narrativos.
- Identificar personagens, espaço, tempo, conflito e desfecho.
- Reconhecer características dos contos maravilhosos.
- Estimular a criatividade por meio de desenhos, recontos, dramatizações e produções textuais.
- Comparar diferentes versões de uma mesma história.
- Refletir sobre atitudes, escolhas e consequências vividas pelos personagens.
- Relacionar os contos clássicos com situações da vida atual.
- Produzir materiais como cartazes, vídeos, podcasts, ilustrações, recontos escritos ou apresentações orais.
- Conhecer alguns contos dos Irmãos Grimm.
- Desenvolver a escuta, a leitura e a interpretação de textos narrativos.
- Identificar personagens, espaço, tempo, conflito e desfecho.
- Reconhecer características dos contos maravilhosos.
- Estimular a criatividade por meio de desenhos, recontos, dramatizações e produções textuais.
- Comparar diferentes versões de uma mesma história.
- Refletir sobre atitudes, escolhas e consequências vividas pelos personagens.
- Relacionar os contos clássicos com situações da vida atual.
- Produzir materiais como cartazes, vídeos, podcasts, ilustrações, recontos escritos ou apresentações orais.
6-Habilidades da BNCC relacionadas
Educação Infantil: escuta, fala, pensamento e imaginação; traços, sons, cores e formas.
Ensino Fundamental — Língua Portuguesa: leitura/escuta, oralidade, produção textual, análise linguística e semiótica.
Ensino Médio: leitura crítica, análise de discursos, repertório cultural, produção de textos orais, escritos e multissemióticos.
Educação Infantil: escuta, fala, pensamento e imaginação; traços, sons, cores e formas.
Ensino Fundamental — Língua Portuguesa: leitura/escuta, oralidade, produção textual, análise linguística e semiótica.
Ensino Médio: leitura crítica, análise de discursos, repertório cultural, produção de textos orais, escritos e multissemióticos.
7. Contos selecionados para o projeto
Com base no material organizado, o projeto poderá trabalhar os seguintes contos:
Com base no material organizado, o projeto poderá trabalhar os seguintes contos:
Observação pedagógica: alguns contos tradicionais dos Irmãos Grimm apresentam situações de medo, violência simbólica, abandono, injustiça ou sofrimento. Por isso, o professor deve selecionar os textos conforme a idade da turma, o nível de maturidade dos estudantes e os objetivos da aula.
Como o projeto reúne diferentes contos, o professor poderá escolher apenas os textos mais adequados à etapa de ensino em que atua.
Observação pedagógica: alguns contos tradicionais dos Irmãos Grimm apresentam situações de medo, violência simbólica, abandono, injustiça ou sofrimento. Por isso, o professor deve selecionar os textos conforme a idade da turma, o nível de maturidade dos estudantes e os objetivos da aula.
Como o projeto reúne diferentes contos, o professor poderá escolher apenas os textos mais adequados à etapa de ensino em que atua.
Texto I — A donzela sem mãos
Conto com temas ligados à injustiça, sofrimento, resistência, proteção, reconstrução da vida e superação.
Texto I: A donzela
sem mãos
Era uma vez, há alguns anos, um homem que ficava na estrada
e que possuía uma pedra enorme de fazer farinha, com a qual moia cereal da
aldeia. Esse moleiro estava passando por dificuldades e não restava nada além
da enorme pedra de moinho e da grande macieira florida atrás da construção.
Um dia, quando ele entrava na floresta com seu machado de gume de prata para
cortar lenha, um velho estranho surgiu atrás de uma árvore.- Não há necessidade
de você se torturar cortando lenha – disse o velho em tom engabelador – posso
adorná-lo de riquezas se você me der o que esta atrás de seu moinho.
- O que esta atrás do meu moinho a não ser a macieira florida? – perguntou-se o
moleiro, concordando com a proposta do velho.
- Dentro de três anos virei buscar o que é meu – disse o estranho rindo a
socapa, e foi embora a mancar, desaparecendo entre os troncos das árvores.
O moleiro encontrou sua mulher no caminho. Ela havia saído correndo de dentro
de casa, com o avental voando e o cabelo desgrenhado.
- Marido, marido meu, quando bateu a hora, surgiu na nossa casa um relógio mais
bonito, nossas cadeiras rústicas forma trocadas por cadeiras de veludo, nossa
pobre despensa esta repleta de carne de caça, nossas arcas e baús transbordam
de tão cheios. Diga-me, por favor, como isso aconteceu. – e nesse exato
momento, anéis de ouro apareceram nos seus dedos e seu cabelo foi puxado e
preso num arco dourado.
- Ah, disse o moleiro, assombrado enquanto seu próprio gibão passava a ser de
cetim. Diante dos seus olhos, seus sapatos de madeira com salto tão gastos que
ele caminhava inclinado para trás também se transformaram em finos sapatos. –
Bem, isso foi um desconhecido – disse ele, ofegante.
- Deparei-me com um homem estranho, com uma sobrecasaca escura. E ele me
prometeu enorme fortuna se eu lhe desse o que está atrás de nosso moinho. Ora
mulher, claro que podemos plantar outra macieira.
- Ai, meu marido! – lamentou-se a mulher dando a impressão de ter levado um
golpe mortal. – O homem de casaco escuro era o diabo e o que está atrás do moinho
é a árvore sim, mas a nossa filha está lá varrendo o quintal com uma vassoura
de salgueiro.
E assim os pais forma cambaleando para casa, derramando lágrimas sobre seus
trajes. A filha permaneceu sem se casar durante três anos, e tinha o
temperamento como uma das primeiras maçãs doces da primavera. No dia que o
diabo veio apanhá-la, ela se banhou, pôs um vestido branco e ficou parada num
círculo de giz que ela mesma traçara à sua volta. Quando o diabo estendeu a mão
para agarrá-la, uma força invisível o lançou para o outro lado do quintal.
- Ela não pode mais se banhar – berrou ele. – Ou não vou conseguir me aproximar
dela.
Os pais ficaram apavorados e algumas semanas se passaram em que ela ficou sem
se banhar, até que o cabelo ficou emaranhado; suas unhas, negras; suas roupas
encardidas e duras de sujeira.
Então; como a donzela parecia cada vez mais com um animal, surgiu mais uma vez
o diabo. No entanto; a menina chorou e suas lágrimas escorreram pelas mãos e
pelos braços. Agora suas mãos e seus braços estavam alvíssimos e limpos. O
diabo ficou furioso.
- Cortem-lhe fora as mãos, do contrário não vou poder me aproximar dela.- Você
quer que eu corte as mãos da minha própria filha? – perguntou o pai
horrorizado.
- Tudo aqui irá morrer, berrou o diabo. – Você, sua mulher e todos os campos
até onde sua vista alcance.
O pai ficou tão apavorado, que pedindo perdão a sua filha começou a afiar o
machado. A filha conformou-se.
- Sou sua filha, faça o que deve fazer.
E foi o que ele fez; no final ninguém podia dizer quem gritou mais alto, se foi
o pai ou a filha. Terminou assim a vida da menina da forma que ela conhecia.
Quando o diabo voltou, a menina havia chorado tanto, que os troncos que lhe
restavam estavam novamente limpos, e o diabo foi mais uma vez atirado para o
outro lado do quintal quando tentou agarrá-la.
Lançando maldições que provocavam pequenos incêndios na floresta, ele
desapareceu para sempre, pois havia perdido todo o direito sobre ela.O pai
havia envelhecido cem anos, e sua esposa também. Como autênticos habitantes da
floresta, eles continuaram como podiam. O velho pai fez a oferta de manter a
filha num imenso castelo de beleza e riqueza pelo resto da vida, mas a filha
disse achar mais condizente que se tornasse mendiga e dependesse da bondade dos
outros para seu sustento. E assim ela fez com que atassem seus braços com gaze
limpa e ao raiar do dia ela se afastou da sua vida como havia sido até então.
Ela caminhou muito. O sol do meio dia fez com que o suor escorresse riscando a
sujeira de seu rosto. O vento desgrenhou tanto o seu cabelo que até parecia um
ninho de cegonha com gravetos enfiados de qualquer jeito. No meio da noite, ela
chegou a um pomar real onde a lua fazia reluzir os frutos das árvores.
Ela não podia entrar já que o pomar era cercado por um fosso. Caiu, então de
joelhos, pois estava faminta. Um espírito etéreo vestido de branco surgiu e
fechou a compota para esvaziar o fosso.
A donzela caminhou por entre as pereiras sabendo de algum modo que cada fruto
perfeito havia sido contado e anotado, e que eles eram também vigiados. Mesmo
assim, um ramo curvou-se abaixo para que ela o alçasse, fazendo o galho
estalar. Ela tocou a pele dourada da pera com os lábios e comeu ali em pé ao
luar, com os braços atados em gaze, os cabelos desgrenhados, parecendo uma
mulher de lama, a donzela sem mãos.
O jardineiro viu tudo, mas reconheceu a magia do espírito que a protegia e não
se intrometeu. Quando ela acabou de comer aquela única pera, ela se retirou
atravessando o fosso e foi dormir no abrigo do bosque.
No dia seguinte o rei veio contar suas peras. Ele descobriu que uma estava
faltando, mas, olhando por toda a parte, não conseguiu encontrar o fruto
desaparecido. Quando lhe perguntaram o jardineiro tinha a explicação.- Ontem a
noite dois espíritos esgotaram o fosso, entraram no jardim a luz do luar e um
deles que era mulher e não tinha mãos comeu a pera que se oferecia a ela.
O rei disse que iria montar guarda naquela noite. Quando escureceu ele veio com
o jardineiro e o mago que sabia conversar com espíritos. Os três se sentaram
debaixo de uma árvore e ficaram vigiando. À meia noite, a donzela veio
flutuando pela floresta, com roupas em farrapos, o cabelo desfeito, o rosto
sujo, os braços sem mãos e o espírito de branco ao seu lado.
Eles entraram no pomar da mesma forma que antes. Mais uma vez a árvore
curvou-se graciosamente para chegar ao seu alcance, e a donzela sorveu a pera
que estava na ponta do ramo. O mago aproximou-se deles, mas não muito.
- Vocês são deste mundo ou não são?- perguntou ele.- Eu fui outrora do outro
mundo – respondeu a donzela. – no entanto não sou deste mundo.
- Ela é humana ou é um espírito? – perguntou o rei ao mago, e ele respondeu que
era as duas coisas. O coração do rei deu um salto, e ele se apressou a chegar a
ela.
- Não renunciarei a você – exclamou o rei - deste dia em diante, eu cuidarei de
você.
No castelo ele mandou fazer para ela um par de mãos de prata, que foram
amarradas aos seus braços. E foi assim que o rei se casou com a donzela sem
mãos.Passado algum tempo o rei teve que ir combater num reino distante e pediu
à mãe que cuidasse da jovem rainha, pois ele a amava de todo coração.
- Se ela der à luz a um filho mande me avisar imediatamente.
A jovem rainha deu a luz a um belo bebe, e a mãe do rei mandou um mensageiro
até ele para lhe dar as boas novas. No entanto no meio do caminho o mensageiro
se cansou e, chegando a um rio, ficou cada vez com mais sono. Afinal, adormeceu
profundamente às margens do rio. O diabo saiu de trás de uma árvore e trocou a
mensagem por uma que a rainha havia dado à luz a uma criança que era metade
humana metade cachorro.
O rei ficou horrorizado com a noticia, mas mesmo assim mandou de volta uma
carta recomendando que amassem a rainha e que cuidassem dela nesse terrível
transe. O rapaz que vinha trazendo a mensagem mais uma vez chegou ao rio e,
sentindo a cabeça pesada como se tivesse comido todo um banquete, logo
adormeceu junto a água. Foi quando o diabo mais uma vez apareceu e trocou a
mensagem para:
- Matem a rainha e a criança.
A velha mãe ficou abalada com essa ordem e mandou um mensageiro pedindo
confirmação. Corriam os mensageiros de um lado para outro, cada um adormecendo
junto ao rio enquanto o diabo trocava as mensagens por outras que ficavam cada
vez mais apavorantes, sendo a ultima que dizia:
- Guardem a língua e os olhos da rainha como prova de que ela está morta.
A velha mãe não pode suportar a ideia de matar a doce jovem. Em vez disso, ela
sacrificou uma corça, arrancou sua língua e seus olhos e os escondeu. Em
seguida, ela ajudou a jovem rainha a atar o bebe junto ao peito e, cobrindo-a
com um véu, disse que ela precisava fugir para salvar a vida. As mulheres
choraram e se beijaram na despedida.
A jovem rainha vagueou até chegar à floresta maior e mais selvagem que jamais
vira. Na tentativa de procurar um caminho, ela procurava passar por cima, pelo
meio e por volta do mato. Quase ao escurecer, o mesmo espírito de branco
apareceu conduzindo a jovem a uma estalagem pobre de gente simpática da
floresta. Uma donzela vestida de branco levou a rainha para dentro e demonstrou
saber seu nome. A criança foi posta no berço.
- Como que você sabe que eu sou rainha? – perguntou a donzela.
- Nós da floresta acompanhamos esses casos, minha rainha. Agora descanse.
E assim a rainha ficou sete anos e se sentia feliz com sua criança e com sua
vida. Aos poucos suas mãos voltaram; primeiro como pequeninas mãozinhas de
bebes, rosadas como pérolas, depois como mãozinhas de menina e afinal como mãos
de mulher.
Enquanto isso o rei voltou da guerra, e sua mãe se lamentou com ele.
- Por que quis que eu matasse dois inocentes? – perguntou ela mostrando-lhe os
olhos e a língua da corça.
Ao ouvir a terrível história o rei cambaleou e caiu a chorar inconsolável. A
mãe viu a dor e contou que os olhos e a língua eram de uma corça e que ela
havia mandado a rainha e o filho fugir pela floresta adentro.
O rei jurou não mais comer, nem beber, e viajar até onde o céu continuasse azul
para encontrar os dois. Ele procurou por sete anos a fio. Suas mãos ficaram
negras, sua barba de um marrom semelhante ao musgo, seus olhos avermelhados e
ressecados. Todo esse tempo, ele não comeu nem bebeu nada, mas uma força maior
do que ele o ajudou a se manter vivo.
Afinal ele chegou à estalagem mantida pelo povo da floresta. A mulher de branco
convidou-o entrar, e ele se deitou de tão cansado. A mulher colocou um véu
sobre o rosto dele, e ele adormeceu. Quando ele chegou à respiração do sono
mais profundo, o véu escorregou aos poucos do seu rosto. Ao despertar, ele
encontrou uma linda mulher e uma bela criança que o contemplava.
- Sou sua esposa e este é seu filho. – O rei queria acreditar, mas a donzela
tinha mãos. – Com todas as minhas afeições e com meus bons cuidados, minhas
mãos voltaram a crescer – disse a donzela. E a mulher de branco trouxe as mãos
de prata que estavam guardadas como um tesouro numa arca. O rei ergueu-se e
abraçou a mulher e o filho, e naquele dia houve uma alegria imensa na floresta.
Todos os espíritos e os ocupantes da estalagem fizeram um banquete. Depois, o
rei, e a rainha e o filho voltaram para a velha mãe, realizaram um segundo
casamento e tiveram muitos outros filhos, todos os quais contaram essa história
para outros cem, que contaram para outros cem, exatamente como vocês fazem
parte dos outros cem a quem eu estou contando.
Conto com temas ligados à injustiça, sofrimento, resistência, proteção, reconstrução da vida e superação.
Texto I: A donzela
sem mãos
Era uma vez, há alguns anos, um homem que ficava na estrada
e que possuía uma pedra enorme de fazer farinha, com a qual moia cereal da
aldeia. Esse moleiro estava passando por dificuldades e não restava nada além
da enorme pedra de moinho e da grande macieira florida atrás da construção.
Um dia, quando ele entrava na floresta com seu machado de gume de prata para
cortar lenha, um velho estranho surgiu atrás de uma árvore.- Não há necessidade
de você se torturar cortando lenha – disse o velho em tom engabelador – posso
adorná-lo de riquezas se você me der o que esta atrás de seu moinho.
- O que esta atrás do meu moinho a não ser a macieira florida? – perguntou-se o
moleiro, concordando com a proposta do velho.
- Dentro de três anos virei buscar o que é meu – disse o estranho rindo a
socapa, e foi embora a mancar, desaparecendo entre os troncos das árvores.
O moleiro encontrou sua mulher no caminho. Ela havia saído correndo de dentro
de casa, com o avental voando e o cabelo desgrenhado.
- Marido, marido meu, quando bateu a hora, surgiu na nossa casa um relógio mais
bonito, nossas cadeiras rústicas forma trocadas por cadeiras de veludo, nossa
pobre despensa esta repleta de carne de caça, nossas arcas e baús transbordam
de tão cheios. Diga-me, por favor, como isso aconteceu. – e nesse exato
momento, anéis de ouro apareceram nos seus dedos e seu cabelo foi puxado e
preso num arco dourado.
- Ah, disse o moleiro, assombrado enquanto seu próprio gibão passava a ser de
cetim. Diante dos seus olhos, seus sapatos de madeira com salto tão gastos que
ele caminhava inclinado para trás também se transformaram em finos sapatos. –
Bem, isso foi um desconhecido – disse ele, ofegante.
- Deparei-me com um homem estranho, com uma sobrecasaca escura. E ele me
prometeu enorme fortuna se eu lhe desse o que está atrás de nosso moinho. Ora
mulher, claro que podemos plantar outra macieira.
- Ai, meu marido! – lamentou-se a mulher dando a impressão de ter levado um
golpe mortal. – O homem de casaco escuro era o diabo e o que está atrás do moinho
é a árvore sim, mas a nossa filha está lá varrendo o quintal com uma vassoura
de salgueiro.
E assim os pais forma cambaleando para casa, derramando lágrimas sobre seus
trajes. A filha permaneceu sem se casar durante três anos, e tinha o
temperamento como uma das primeiras maçãs doces da primavera. No dia que o
diabo veio apanhá-la, ela se banhou, pôs um vestido branco e ficou parada num
círculo de giz que ela mesma traçara à sua volta. Quando o diabo estendeu a mão
para agarrá-la, uma força invisível o lançou para o outro lado do quintal.
- Ela não pode mais se banhar – berrou ele. – Ou não vou conseguir me aproximar
dela.
Os pais ficaram apavorados e algumas semanas se passaram em que ela ficou sem
se banhar, até que o cabelo ficou emaranhado; suas unhas, negras; suas roupas
encardidas e duras de sujeira.
Então; como a donzela parecia cada vez mais com um animal, surgiu mais uma vez
o diabo. No entanto; a menina chorou e suas lágrimas escorreram pelas mãos e
pelos braços. Agora suas mãos e seus braços estavam alvíssimos e limpos. O
diabo ficou furioso.
- Cortem-lhe fora as mãos, do contrário não vou poder me aproximar dela.- Você
quer que eu corte as mãos da minha própria filha? – perguntou o pai
horrorizado.
- Tudo aqui irá morrer, berrou o diabo. – Você, sua mulher e todos os campos
até onde sua vista alcance.
O pai ficou tão apavorado, que pedindo perdão a sua filha começou a afiar o
machado. A filha conformou-se.
- Sou sua filha, faça o que deve fazer.
E foi o que ele fez; no final ninguém podia dizer quem gritou mais alto, se foi
o pai ou a filha. Terminou assim a vida da menina da forma que ela conhecia.
Quando o diabo voltou, a menina havia chorado tanto, que os troncos que lhe
restavam estavam novamente limpos, e o diabo foi mais uma vez atirado para o
outro lado do quintal quando tentou agarrá-la.
Lançando maldições que provocavam pequenos incêndios na floresta, ele
desapareceu para sempre, pois havia perdido todo o direito sobre ela.O pai
havia envelhecido cem anos, e sua esposa também. Como autênticos habitantes da
floresta, eles continuaram como podiam. O velho pai fez a oferta de manter a
filha num imenso castelo de beleza e riqueza pelo resto da vida, mas a filha
disse achar mais condizente que se tornasse mendiga e dependesse da bondade dos
outros para seu sustento. E assim ela fez com que atassem seus braços com gaze
limpa e ao raiar do dia ela se afastou da sua vida como havia sido até então.
Ela caminhou muito. O sol do meio dia fez com que o suor escorresse riscando a
sujeira de seu rosto. O vento desgrenhou tanto o seu cabelo que até parecia um
ninho de cegonha com gravetos enfiados de qualquer jeito. No meio da noite, ela
chegou a um pomar real onde a lua fazia reluzir os frutos das árvores.
Ela não podia entrar já que o pomar era cercado por um fosso. Caiu, então de
joelhos, pois estava faminta. Um espírito etéreo vestido de branco surgiu e
fechou a compota para esvaziar o fosso.
A donzela caminhou por entre as pereiras sabendo de algum modo que cada fruto
perfeito havia sido contado e anotado, e que eles eram também vigiados. Mesmo
assim, um ramo curvou-se abaixo para que ela o alçasse, fazendo o galho
estalar. Ela tocou a pele dourada da pera com os lábios e comeu ali em pé ao
luar, com os braços atados em gaze, os cabelos desgrenhados, parecendo uma
mulher de lama, a donzela sem mãos.
O jardineiro viu tudo, mas reconheceu a magia do espírito que a protegia e não
se intrometeu. Quando ela acabou de comer aquela única pera, ela se retirou
atravessando o fosso e foi dormir no abrigo do bosque.
No dia seguinte o rei veio contar suas peras. Ele descobriu que uma estava
faltando, mas, olhando por toda a parte, não conseguiu encontrar o fruto
desaparecido. Quando lhe perguntaram o jardineiro tinha a explicação.- Ontem a
noite dois espíritos esgotaram o fosso, entraram no jardim a luz do luar e um
deles que era mulher e não tinha mãos comeu a pera que se oferecia a ela.
O rei disse que iria montar guarda naquela noite. Quando escureceu ele veio com
o jardineiro e o mago que sabia conversar com espíritos. Os três se sentaram
debaixo de uma árvore e ficaram vigiando. À meia noite, a donzela veio
flutuando pela floresta, com roupas em farrapos, o cabelo desfeito, o rosto
sujo, os braços sem mãos e o espírito de branco ao seu lado.
Eles entraram no pomar da mesma forma que antes. Mais uma vez a árvore
curvou-se graciosamente para chegar ao seu alcance, e a donzela sorveu a pera
que estava na ponta do ramo. O mago aproximou-se deles, mas não muito.
- Vocês são deste mundo ou não são?- perguntou ele.- Eu fui outrora do outro
mundo – respondeu a donzela. – no entanto não sou deste mundo.
- Ela é humana ou é um espírito? – perguntou o rei ao mago, e ele respondeu que
era as duas coisas. O coração do rei deu um salto, e ele se apressou a chegar a
ela.
- Não renunciarei a você – exclamou o rei - deste dia em diante, eu cuidarei de
você.
No castelo ele mandou fazer para ela um par de mãos de prata, que foram
amarradas aos seus braços. E foi assim que o rei se casou com a donzela sem
mãos.Passado algum tempo o rei teve que ir combater num reino distante e pediu
à mãe que cuidasse da jovem rainha, pois ele a amava de todo coração.
- Se ela der à luz a um filho mande me avisar imediatamente.
A jovem rainha deu a luz a um belo bebe, e a mãe do rei mandou um mensageiro
até ele para lhe dar as boas novas. No entanto no meio do caminho o mensageiro
se cansou e, chegando a um rio, ficou cada vez com mais sono. Afinal, adormeceu
profundamente às margens do rio. O diabo saiu de trás de uma árvore e trocou a
mensagem por uma que a rainha havia dado à luz a uma criança que era metade
humana metade cachorro.
O rei ficou horrorizado com a noticia, mas mesmo assim mandou de volta uma
carta recomendando que amassem a rainha e que cuidassem dela nesse terrível
transe. O rapaz que vinha trazendo a mensagem mais uma vez chegou ao rio e,
sentindo a cabeça pesada como se tivesse comido todo um banquete, logo
adormeceu junto a água. Foi quando o diabo mais uma vez apareceu e trocou a
mensagem para:
- Matem a rainha e a criança.
A velha mãe ficou abalada com essa ordem e mandou um mensageiro pedindo
confirmação. Corriam os mensageiros de um lado para outro, cada um adormecendo
junto ao rio enquanto o diabo trocava as mensagens por outras que ficavam cada
vez mais apavorantes, sendo a ultima que dizia:
- Guardem a língua e os olhos da rainha como prova de que ela está morta.
A velha mãe não pode suportar a ideia de matar a doce jovem. Em vez disso, ela
sacrificou uma corça, arrancou sua língua e seus olhos e os escondeu. Em
seguida, ela ajudou a jovem rainha a atar o bebe junto ao peito e, cobrindo-a
com um véu, disse que ela precisava fugir para salvar a vida. As mulheres
choraram e se beijaram na despedida.
A jovem rainha vagueou até chegar à floresta maior e mais selvagem que jamais
vira. Na tentativa de procurar um caminho, ela procurava passar por cima, pelo
meio e por volta do mato. Quase ao escurecer, o mesmo espírito de branco
apareceu conduzindo a jovem a uma estalagem pobre de gente simpática da
floresta. Uma donzela vestida de branco levou a rainha para dentro e demonstrou
saber seu nome. A criança foi posta no berço.
- Como que você sabe que eu sou rainha? – perguntou a donzela.
- Nós da floresta acompanhamos esses casos, minha rainha. Agora descanse.
E assim a rainha ficou sete anos e se sentia feliz com sua criança e com sua
vida. Aos poucos suas mãos voltaram; primeiro como pequeninas mãozinhas de
bebes, rosadas como pérolas, depois como mãozinhas de menina e afinal como mãos
de mulher.
Enquanto isso o rei voltou da guerra, e sua mãe se lamentou com ele.
- Por que quis que eu matasse dois inocentes? – perguntou ela mostrando-lhe os
olhos e a língua da corça.
Ao ouvir a terrível história o rei cambaleou e caiu a chorar inconsolável. A
mãe viu a dor e contou que os olhos e a língua eram de uma corça e que ela
havia mandado a rainha e o filho fugir pela floresta adentro.
O rei jurou não mais comer, nem beber, e viajar até onde o céu continuasse azul
para encontrar os dois. Ele procurou por sete anos a fio. Suas mãos ficaram
negras, sua barba de um marrom semelhante ao musgo, seus olhos avermelhados e
ressecados. Todo esse tempo, ele não comeu nem bebeu nada, mas uma força maior
do que ele o ajudou a se manter vivo.
Afinal ele chegou à estalagem mantida pelo povo da floresta. A mulher de branco
convidou-o entrar, e ele se deitou de tão cansado. A mulher colocou um véu
sobre o rosto dele, e ele adormeceu. Quando ele chegou à respiração do sono
mais profundo, o véu escorregou aos poucos do seu rosto. Ao despertar, ele
encontrou uma linda mulher e uma bela criança que o contemplava.
- Sou sua esposa e este é seu filho. – O rei queria acreditar, mas a donzela
tinha mãos. – Com todas as minhas afeições e com meus bons cuidados, minhas
mãos voltaram a crescer – disse a donzela. E a mulher de branco trouxe as mãos
de prata que estavam guardadas como um tesouro numa arca. O rei ergueu-se e
abraçou a mulher e o filho, e naquele dia houve uma alegria imensa na floresta.
Todos os espíritos e os ocupantes da estalagem fizeram um banquete. Depois, o
rei, e a rainha e o filho voltaram para a velha mãe, realizaram um segundo
casamento e tiveram muitos outros filhos, todos os quais contaram essa história
para outros cem, que contaram para outros cem, exatamente como vocês fazem
parte dos outros cem a quem eu estou contando.
Texto II — Os três cabelos de ouro do diabo
Conto que permite trabalhar coragem, esperteza, destino, ganância, justiça e resolução de problemas.
Os três cabelos de ouro do diabo
Há muitos e muitos anos, numa casinha pobre, nasceu um
menino bonito e forte, mas que, ao contrário de todas as outras crianças,
nasceu com todos os dentes na boca. Os pais, assim que o viram, ficaram muito
assusta-os, pensando se tratar de alguma bruxaria. As vizinhas, entretanto, os
tranquilizaram, dizendo que nascer com dentes era sinal de boa sorte. E uma
delas, que era considerada feiticeira, profetizou que o menino, ao completar
quinze anos, se casaria com a filha do imperador do país.
Um dia, quando o menino ainda era bem pequeno, o imperador passou casualmente
pela vila e ouviu contar a história da criança, que era chamada de o
"Filho da Sorte." Indignado com a possibilidade de ver sua filha
casada com um tipo qualquer, pobre e de origem humilde, o imperador resolveu
dar um jeito de impedir que a profecia se cumprisse.
Dizendo-se um rico comerciante, apresentou-se na casa onde vivia o Filho da
Sorte. Tomou a criança nos braços e, fingindo-se encantado com sua beleza,
disse aos pais que era muito rico e não tinha ninguém a quem deixar sua
herança. Por isso, gostaria muito de poder levar o bebê e criá-lo como se fosse
seu filho. O casal, a princípio, não aceitou a proposta, mas o imperador foi
tão hábil e convincente que os fez acreditar que daria ao menino uma vida muito
melhor do que ele teria naquela casa pobre.
Assim, o perverso imperador levou consigo o pequeno Filho da Sorte e, logo que
se viu sozinho, fora da cidade, colocou-o numa caixa e atirou-a ao rio, na
certeza de que ela afundaria, matando a criança.
Mas o menino parecia merecer mesmo o nome de Filho da Sorte, pois a caixa, em
vez de afundar, saiu flutuando rio abaixo, indo parar no açude de um moinho.
Um velho moleiro que ali trabalhava, pensando ter encontrado um tesouro, foi
correndo tirar a caixa da água. Quando a abriu, ficou comovido por ver uma
criança tão linda e esperta abandonada para morrer. Como não tinha filhos,
levou o bebê para casa. A mulher do moleiro ficou muito feliz, e o Filho da
Sorte cresceu ali, rodeado pelo carinho dos pais adotivos.
O tempo passou e, um dia, alguns meses depois que o menino havia completado
quinze anos, o imperador e sua comitiva viajavam pela região quando caiu uma
tempestade muito forte. Como não havia nada por perto a não ser o moinho, o
imperador foi obrigado a pedir abrigo na casa do velho moleiro.
O casal de velhos o recebeu muito bem. Para que o tempo passasse mais depressa,
ficaram conversando com o imperador. Não demorou para que a beleza e a
vivacidade do Filho da Sorte chamassem a atenção do monarca, que perguntou ao
moleiro se o menino era seu filho. A mulher, inocentemente, respondeu-lhe que
não, e acabou contando a história de como haviam encontrado a criança.
Quando ela terminou de falar, os olhos do imperador estavam vermelhos de ódio,
pois ele logo se deu conta de quem era o rapaz. Furioso por ele ainda estar
vivo, começou imediatamente a pensar num jeito de liquidar o moço de uma vez.
Como estava no meio de uma grande viagem e demoraria muitos meses para voltar
ao palácio, o imperador ficou com medo de que a profecia se concretizasse
durante sua ausência. Assim, resolveu agir rapidamente e, dando algumas moedas
aos velhos, pediu-lhes que deixassem o rapaz levar uma mensagem à rainha, na
capital do reino. Em seguida, mandasse à sua mulher ordenando que ela mandasse
executar imediatamente o rapaz que lhe entregasse aquela carta.
No dia seguinte, bem cedinho, lá se foi o Filho da Sorte na direção da capital
do reino, sem saber que levava nas mãos sua própria lentença de morte.
Andou o dia inteiro, sem descanso, pois queria chegar logo ao palácio. No
entanto, como nunca havia deixado a vila em que morava, o rapaz se desviou do
caminho certo e acabou se perdendo no meio da floresta.
Quando já estava anoitecendo, o Filho da Sorte viu, numa clareira, uma cabana,
onde resolveu pedir ajuda. Bateu à porta e uma velhinha muito bondosa veio
atender. Á mulher o acolheu com simpatia e, depois de ouvir sua história,
deu-lhe de comer e de beber, mas avisou-lhe que seria melhor ele não dormir
ali, pois aquela cabana servia de esconderijo a perigosos ladrões, que
certamente o matariam quando o encontrassem.
O rapaz, entretanto, não teve medo e insistiu tanto que a boa senhora
arranjou-lhe um canto da cabana onde pudesse dormir aquela noite.
De madrugada, quando o Filho da Sorte dormia a sono solto, chegaram os ladrões.
A velha, temendo pela vida de seu hóspede, avisou aos malfeitores que havia
alguém na cabana, mas que se tratava apenas do filho de um moleiro que estava
a caminho da capital para levar uma carta do imperador à mulher.
O chefe dos bandidos ficou muito curioso para saber o conteúdo da carta e a
abriu para ler. Ao ver a maldade que estava fazendo com o pobre rapaz, ficou
indignado e resolveu pregar uma peça no malvado soberano. Imitando a letra do
imperador, escreveu uma nova mensagem à rainha, ordenando que ela casasse
imediatamente a princesa com o portador daquela carta. Em seguida, queimou a
carta verdadeira e colocou a outra em seu lugar.
Na manhã seguinte, o Filho da Sorte, sem saber de nada, partiu. Orientado pelo
próprio chefe dos ladrões, encontrou facilmente o caminho certo para a capital
e horas depois se apresentava no palácio.
A rainha, ao ler a mensagem que julgava ler de seu marido, preparou tudo para o
casamento, que se realizou naquela mesma tarde, na capela do palácio.
Meses depois o imperador voltou de sua viagem e, vendo sua filha casada com o
filho do moleiro, ficou furioso com a mulher, lista, sem entender por que o
marido estava tão bravo, mostrou-lhe a carta que havia recebido. Como não
havia mais remédio para a situação, o imperador decidiu não punir nem a mulher
nem o genro, para a felicidade da princesa, que gostava muito do marido. Por
outro lado, era impossível aceitar que a princesa vivesse casada com um tipo
qualquer, sem eira nem beira, como aquele; por isso o imperador chamou o genro
e lhe disse:
- Para eu consentir que você e minha filha continuem vivendo juntos, é preciso
que você se torne digno de ser um príncipe realizando alguma façanha. Por
isso, eu lhe dou uma tarefa para cumprir: quero que vá até o inferno e traga de
lá três cabelos de ouro do Diabo. Se conseguir realizar esse feito, quando
voltar eu o farei príncipe.
O Filho da Sorte, esperto e valente como era, partiu sem demora rumo ao
inferno.
Caminhou durante muitos dias, até chegar à porta de uma grande cidade, onde
uma sentinela lhe perguntou que problemas ele sabia resolver.
- Todos! - respondeu o rapaz.
- Todos?! - disse o guarda. - Então faça-me o favor de dizer por que a fonte do
nosso mercado, que antes jorrava um vinho delicioso, agora está tão seca que
não solta nem uma gota de água!
- Não posso responder agora - ele respondeu -, mas, se me deixar passar, eu
lhe trarei a resposta na volta.
A sentinela, confiando na palavra do rapaz, abriu as portas da cidade para que
ele passasse.
O Filho da Sorte seguiu seu caminho e alguns dias depois chegou à porta de uma
outra cidade, onde havia outra sentinela que também lhe perguntou que problemas
ele sabia resolver.
- Todos! - respondeu ele mais uma vez.
- Ah, é? - disse a sentinela. - Então me responda por que é que a árvore grande
dos jardins do nosso rei, que antes dava frutos de ouro, agora está tão seca
que não tem nem uma folha mais!
- Nao posso responder agora - disse o moço -, mas, se me deixar passar, eu lhe
trarei a resposta na volta!
O guarda também acreditou em sua palavra e o deixou seguir.
Alguns dias depois, o filho do moleiro chegou a um grande rio que precisava
atravessar para chegar ao inferno. Só havia ali um barqueiro que, ao vê-lo,
perguntou a mesma coisa que as duas sentinelas. Quando ouviu o rapaz dizer que
sabia resolver todos os problemas, o barqueiro, interessado, disse-lhe:
- Meu jovem, se você sabe mesmo de tudo, então me explique logo por que eu preciso
ficar a vida inteira sendo barqueiro, atravessando gente de um lado para outro
do rio, sem nunca encontrar uma alma boa que venha me substituir neste
trabalho!
- Não sei explicar o motivo - disse o Filho da Sorte -, mas, se me levar à
outra margem, prometo que na volta eu trarei a resposta à sua pergunta!
O barqueiro também acreditou na pala
vra do Filho da Sorte e o levou para o outro
lado do rio.
Bem perto dali ficava a porta do inferno. O rapaz bateu bem forte e esperou ser
atendido. Algum tempo depois, apareceu à porta a avó do Diabo, dizendo que seu
neto não estava. Como ela parecia ser uma boa pessoa, o moço contou-lhe sua
história, e a velha, condoendo-se da sua situação, resolveu ajudá-lo.
- Mas se o meu neto o encontrar aqui - disse ela -, vai ficar tão furioso que
vai querer matá-lo no mesmo instante e comê-lo as sado no jantar. Por isso
preciso escondê-lo.
Assim, a velha transformou o Filho da Sorte numa formiguinha e o escondeu numa
das dobras de sua saia.
Minutos depois, chegava em casa o Diabo, e já vinha faminto, pois havia
sentido cheiro de carne humana, seu prato predileto. Farejou por todos os
cantos do inferno, mas, como nada encontrasse, a velha lhe disse:
- Você anda com mania de sentir cheiro
de gente! Venha comer que eu matei um franguinho novo especialmente para. o seu
jantar!
O Diabo comeu até fartar-se e, depois, como era seu costume, deitou-se no colo
da avó para que ela lhe fizesse cafuné. Dali a pouco, dormia profundamente e a
velhinha aproveitou-se disso para arrancar o primeiro fio de ouro de sua
cabeça.
- Ai! - gritou Satanás. - Que é que
você está fazendo, minha avozinha?
- Nada - respondeu a velha. - É que tive um sonho mau e acordei agarrada em
seus cabelos!
- E qual foi o sonho que teve? - perguntou o Diabo.
- Sonhei que a fonte do mercado de uma cidade, que antigamente só jorrava vinho,
agora anda tão seca que não solta nem uma gota de água.
Satanás deu uma gostosa gargalhada e depois respondeu:
- É verdade! É verdade! É que existe uma pedra tampando o nascedouro da fonte!
Se a tirarem, a fonte voltará imediatamente a jorrar vinho.
A avó do Diabo voltou a fazer cafuné na cabeça do neto e logo depois ele dormia
tão pesado que roncava. Quando estava num sono ferrado, a velha aproveitou para
arrancar o segundo fio de cabelo.
- Ai! Ai! Ai! - fez ele de novo. - O que é que aconteceu agora?
- Eu sonhei outra vez! - disse a avó.
Desta vez foi com uma outra cidade onde havia, no jardim do rei, uma árvore que
dava frutos de ouro e que agora está cada dia mais seca!
O Diabo riu gostosamente e respondeu:
- Isto também é verdade, minha avó! E sabe por que a árvore secou? Porque em
baixo dela há um rato que diariamente rói suas raízes. Se matarem o rato, a
árvore ficará verde outra vez. Se o deixarem lá, ela ficará cada dia mais
seca, até morrer!
Depois de dizer isso, Satanás ajeitou de novo a cabeça no colo da avó e, logo,
embalado pelo cafuné, dormia outra vez. A velhinha aproveitou então para
arrancar o terceiro fio e ele, acordando por causa da dor, gritou furioso:
- Ai, minha avó! Seus sonhos vão acabar me deixando careca! O que foi desta
vez?
- Sonhei com um barqueiro - disse a avó - que se queixava de ficar eternamente
passando gente de uma margem para outra< do rio sem nunca encontrar alguém
que o substituísse nesse trabalho sem fim!
- Ah! - respondeu o Diabo, dando outra gargalhada. - Esse barqueiro é um bobo!
Se ele quiser sair de lá, é preciso apenas que abandone os remos na mão da
primeira pessoa que aparecer pedindo para passar à outra margem do rio! A
pessoa não terá outro remédio senão tomar o lugar do barqueiro!
Como já estava de posse dos três fios de cabelo, e já havia obtido as respostas
para as três perguntas, a velhinha finalmente deixou Satanás dormir sossegado.
Logo de manhã, dizendo ao neto que ia buscar água, a avó do Diabo saiu do
inferno e retirou a formiguinha da dobra da saia, restituindo ao Filho da Sorte
a forma humana. De posse das três respostas, o rapaz pegou os três fios de
cabelo de ouro e, depois de agradecer muito à -velhinha, iniciou o caminho de
volta.
Logo chegava outra vez à margem do grande rio e o barqueiro, ansioso, perguntou
pela sua resposta.
- Primeiro você precisa me levar ao outro lado - respondeu o rapaz.
E, assim que o barqueiro o atravessou, o moço ensinou-lhe como deveria fazer
para escapar da sina de ser barqueiro eternamente. Muito feliz, o homem
agradeceu a ajuda e o Filho da Sorte seguiu seu caminho.
Depois de alguns dias, chegava ao portão da cidade onde existia a árvore que
dava frutos de ouro. Ensinou à sentinela o que se devia fazer para recuperar
a árvore, e o homem, agradecido, deu-lhe como recompensa dois jumentos
carregados de ouro e pedras preciosas.
Mais à frente, passou outra vez pelo portão da cidade cuja fonte de vinho
havia secado. A sentinela logo indagou da resposta e o moço ensinou-lhe o que
fazer, conforme havia ouvido da boca de Satanás. Muito feliz, o guarda deu-lhe
mais dois jumentos carregados de ouro e lá se foi o Filho da Sorte, rumo ao
reino de seu sogro.
Chegou ao palácio muito satisfeito, pois, além de haver cumprido a façanha
exigida, estava agora muito rico.
A princesa, sua esposa, o recebeu com muita alegria e o imperador, depois de
ter em mãos os três cabelos de ouro e ver a riqueza que o genro trazia,
permitiu que ele vivesse com sua filha e o tornou príncipe.
Tudo ia muito bem no palácio, mas o imperador era muito ambicioso e morria de
curiosidade para descobrir como e onde o genro havia conseguido tantas
riquezas.
Um dia, não resistindo mais, acabou perguntando, e o Filho da Sorte lhe
respondeu:
- Foi muito fácil, meu sogro! No caminho para o inferno há um grande rio onde
está sempre um barqueiro que atravessa todas as pessoas. É só pedir para ele
atravessá-lo e colher, na margem de lá, todo o ouro que puder carregar, pois o
ouro ali é a areia do chão!
- E eu posso ir até lá pegar ouro para mim também? - perguntou o imperador.
- Claro, meu sogro! - respondeu o rapaz. - É só falar com o barqueiro!
O ganancioso imperador saiu logo na ma-nhã seguinte, ansioso por encontrar o
lugar onde havia tanta riqueza. Viajou por vários dias e, de fato, acabou
encontrando o barqueiro. Este, que aguardava ansiosamente o aparecimento de
alguém, assim que o imperador lhe pediu que o atravessasse, entregou-lhe com
satisfação os remos e disse: – Atravesse você mesmo, ora! Movido pela ambição,
o imperador aceitou a tarefa e saiu remando, enquanto o bar-queiro, feliz da
vida, saía por esse mundo afora, livre outra vez.
E dizem que até hoje o imperador está lá, Cumprindo a eterna tarefa de
atravessar gente de um lado para outro do rio.
Quanto ao Filho da Sorte, viveu feliz por muitos e muitos anos, junto com a
princesa, sua amada esposa.
Conto que permite trabalhar coragem, esperteza, destino, ganância, justiça e resolução de problemas.
Os três cabelos de ouro do diabo
Há muitos e muitos anos, numa casinha pobre, nasceu um
menino bonito e forte, mas que, ao contrário de todas as outras crianças,
nasceu com todos os dentes na boca. Os pais, assim que o viram, ficaram muito
assusta-os, pensando se tratar de alguma bruxaria. As vizinhas, entretanto, os
tranquilizaram, dizendo que nascer com dentes era sinal de boa sorte. E uma
delas, que era considerada feiticeira, profetizou que o menino, ao completar
quinze anos, se casaria com a filha do imperador do país.
Um dia, quando o menino ainda era bem pequeno, o imperador passou casualmente
pela vila e ouviu contar a história da criança, que era chamada de o
"Filho da Sorte." Indignado com a possibilidade de ver sua filha
casada com um tipo qualquer, pobre e de origem humilde, o imperador resolveu
dar um jeito de impedir que a profecia se cumprisse.
Dizendo-se um rico comerciante, apresentou-se na casa onde vivia o Filho da
Sorte. Tomou a criança nos braços e, fingindo-se encantado com sua beleza,
disse aos pais que era muito rico e não tinha ninguém a quem deixar sua
herança. Por isso, gostaria muito de poder levar o bebê e criá-lo como se fosse
seu filho. O casal, a princípio, não aceitou a proposta, mas o imperador foi
tão hábil e convincente que os fez acreditar que daria ao menino uma vida muito
melhor do que ele teria naquela casa pobre.
Assim, o perverso imperador levou consigo o pequeno Filho da Sorte e, logo que
se viu sozinho, fora da cidade, colocou-o numa caixa e atirou-a ao rio, na
certeza de que ela afundaria, matando a criança.
Mas o menino parecia merecer mesmo o nome de Filho da Sorte, pois a caixa, em
vez de afundar, saiu flutuando rio abaixo, indo parar no açude de um moinho.
Um velho moleiro que ali trabalhava, pensando ter encontrado um tesouro, foi
correndo tirar a caixa da água. Quando a abriu, ficou comovido por ver uma
criança tão linda e esperta abandonada para morrer. Como não tinha filhos,
levou o bebê para casa. A mulher do moleiro ficou muito feliz, e o Filho da
Sorte cresceu ali, rodeado pelo carinho dos pais adotivos.
O tempo passou e, um dia, alguns meses depois que o menino havia completado
quinze anos, o imperador e sua comitiva viajavam pela região quando caiu uma
tempestade muito forte. Como não havia nada por perto a não ser o moinho, o
imperador foi obrigado a pedir abrigo na casa do velho moleiro.
O casal de velhos o recebeu muito bem. Para que o tempo passasse mais depressa,
ficaram conversando com o imperador. Não demorou para que a beleza e a
vivacidade do Filho da Sorte chamassem a atenção do monarca, que perguntou ao
moleiro se o menino era seu filho. A mulher, inocentemente, respondeu-lhe que
não, e acabou contando a história de como haviam encontrado a criança.
Quando ela terminou de falar, os olhos do imperador estavam vermelhos de ódio,
pois ele logo se deu conta de quem era o rapaz. Furioso por ele ainda estar
vivo, começou imediatamente a pensar num jeito de liquidar o moço de uma vez.
Como estava no meio de uma grande viagem e demoraria muitos meses para voltar
ao palácio, o imperador ficou com medo de que a profecia se concretizasse
durante sua ausência. Assim, resolveu agir rapidamente e, dando algumas moedas
aos velhos, pediu-lhes que deixassem o rapaz levar uma mensagem à rainha, na
capital do reino. Em seguida, mandasse à sua mulher ordenando que ela mandasse
executar imediatamente o rapaz que lhe entregasse aquela carta.
No dia seguinte, bem cedinho, lá se foi o Filho da Sorte na direção da capital
do reino, sem saber que levava nas mãos sua própria lentença de morte.
Andou o dia inteiro, sem descanso, pois queria chegar logo ao palácio. No
entanto, como nunca havia deixado a vila em que morava, o rapaz se desviou do
caminho certo e acabou se perdendo no meio da floresta.
Quando já estava anoitecendo, o Filho da Sorte viu, numa clareira, uma cabana,
onde resolveu pedir ajuda. Bateu à porta e uma velhinha muito bondosa veio
atender. Á mulher o acolheu com simpatia e, depois de ouvir sua história,
deu-lhe de comer e de beber, mas avisou-lhe que seria melhor ele não dormir
ali, pois aquela cabana servia de esconderijo a perigosos ladrões, que
certamente o matariam quando o encontrassem.
O rapaz, entretanto, não teve medo e insistiu tanto que a boa senhora
arranjou-lhe um canto da cabana onde pudesse dormir aquela noite.
De madrugada, quando o Filho da Sorte dormia a sono solto, chegaram os ladrões.
A velha, temendo pela vida de seu hóspede, avisou aos malfeitores que havia
alguém na cabana, mas que se tratava apenas do filho de um moleiro que estava
a caminho da capital para levar uma carta do imperador à mulher.
O chefe dos bandidos ficou muito curioso para saber o conteúdo da carta e a
abriu para ler. Ao ver a maldade que estava fazendo com o pobre rapaz, ficou
indignado e resolveu pregar uma peça no malvado soberano. Imitando a letra do
imperador, escreveu uma nova mensagem à rainha, ordenando que ela casasse
imediatamente a princesa com o portador daquela carta. Em seguida, queimou a
carta verdadeira e colocou a outra em seu lugar.
Na manhã seguinte, o Filho da Sorte, sem saber de nada, partiu. Orientado pelo
próprio chefe dos ladrões, encontrou facilmente o caminho certo para a capital
e horas depois se apresentava no palácio.
A rainha, ao ler a mensagem que julgava ler de seu marido, preparou tudo para o
casamento, que se realizou naquela mesma tarde, na capela do palácio.
Meses depois o imperador voltou de sua viagem e, vendo sua filha casada com o
filho do moleiro, ficou furioso com a mulher, lista, sem entender por que o
marido estava tão bravo, mostrou-lhe a carta que havia recebido. Como não
havia mais remédio para a situação, o imperador decidiu não punir nem a mulher
nem o genro, para a felicidade da princesa, que gostava muito do marido. Por
outro lado, era impossível aceitar que a princesa vivesse casada com um tipo
qualquer, sem eira nem beira, como aquele; por isso o imperador chamou o genro
e lhe disse:
- Para eu consentir que você e minha filha continuem vivendo juntos, é preciso
que você se torne digno de ser um príncipe realizando alguma façanha. Por
isso, eu lhe dou uma tarefa para cumprir: quero que vá até o inferno e traga de
lá três cabelos de ouro do Diabo. Se conseguir realizar esse feito, quando
voltar eu o farei príncipe.
O Filho da Sorte, esperto e valente como era, partiu sem demora rumo ao
inferno.
Caminhou durante muitos dias, até chegar à porta de uma grande cidade, onde
uma sentinela lhe perguntou que problemas ele sabia resolver.
- Todos! - respondeu o rapaz.
- Todos?! - disse o guarda. - Então faça-me o favor de dizer por que a fonte do
nosso mercado, que antes jorrava um vinho delicioso, agora está tão seca que
não solta nem uma gota de água!
- Não posso responder agora - ele respondeu -, mas, se me deixar passar, eu
lhe trarei a resposta na volta.
A sentinela, confiando na palavra do rapaz, abriu as portas da cidade para que
ele passasse.
O Filho da Sorte seguiu seu caminho e alguns dias depois chegou à porta de uma
outra cidade, onde havia outra sentinela que também lhe perguntou que problemas
ele sabia resolver.
- Todos! - respondeu ele mais uma vez.
- Ah, é? - disse a sentinela. - Então me responda por que é que a árvore grande
dos jardins do nosso rei, que antes dava frutos de ouro, agora está tão seca
que não tem nem uma folha mais!
- Nao posso responder agora - disse o moço -, mas, se me deixar passar, eu lhe
trarei a resposta na volta!
O guarda também acreditou em sua palavra e o deixou seguir.
Alguns dias depois, o filho do moleiro chegou a um grande rio que precisava
atravessar para chegar ao inferno. Só havia ali um barqueiro que, ao vê-lo,
perguntou a mesma coisa que as duas sentinelas. Quando ouviu o rapaz dizer que
sabia resolver todos os problemas, o barqueiro, interessado, disse-lhe:
- Meu jovem, se você sabe mesmo de tudo, então me explique logo por que eu preciso
ficar a vida inteira sendo barqueiro, atravessando gente de um lado para outro
do rio, sem nunca encontrar uma alma boa que venha me substituir neste
trabalho!
- Não sei explicar o motivo - disse o Filho da Sorte -, mas, se me levar à
outra margem, prometo que na volta eu trarei a resposta à sua pergunta!
O barqueiro também acreditou na pala
vra do Filho da Sorte e o levou para o outro
lado do rio.
Bem perto dali ficava a porta do inferno. O rapaz bateu bem forte e esperou ser
atendido. Algum tempo depois, apareceu à porta a avó do Diabo, dizendo que seu
neto não estava. Como ela parecia ser uma boa pessoa, o moço contou-lhe sua
história, e a velha, condoendo-se da sua situação, resolveu ajudá-lo.
- Mas se o meu neto o encontrar aqui - disse ela -, vai ficar tão furioso que
vai querer matá-lo no mesmo instante e comê-lo as sado no jantar. Por isso
preciso escondê-lo.
Assim, a velha transformou o Filho da Sorte numa formiguinha e o escondeu numa
das dobras de sua saia.
Minutos depois, chegava em casa o Diabo, e já vinha faminto, pois havia
sentido cheiro de carne humana, seu prato predileto. Farejou por todos os
cantos do inferno, mas, como nada encontrasse, a velha lhe disse:
- Você anda com mania de sentir cheiro
de gente! Venha comer que eu matei um franguinho novo especialmente para. o seu
jantar!
O Diabo comeu até fartar-se e, depois, como era seu costume, deitou-se no colo
da avó para que ela lhe fizesse cafuné. Dali a pouco, dormia profundamente e a
velhinha aproveitou-se disso para arrancar o primeiro fio de ouro de sua
cabeça.
- Ai! - gritou Satanás. - Que é que
você está fazendo, minha avozinha?
- Nada - respondeu a velha. - É que tive um sonho mau e acordei agarrada em
seus cabelos!
- E qual foi o sonho que teve? - perguntou o Diabo.
- Sonhei que a fonte do mercado de uma cidade, que antigamente só jorrava vinho,
agora anda tão seca que não solta nem uma gota de água.
Satanás deu uma gostosa gargalhada e depois respondeu:
- É verdade! É verdade! É que existe uma pedra tampando o nascedouro da fonte!
Se a tirarem, a fonte voltará imediatamente a jorrar vinho.
A avó do Diabo voltou a fazer cafuné na cabeça do neto e logo depois ele dormia
tão pesado que roncava. Quando estava num sono ferrado, a velha aproveitou para
arrancar o segundo fio de cabelo.
- Ai! Ai! Ai! - fez ele de novo. - O que é que aconteceu agora?
- Eu sonhei outra vez! - disse a avó.
Desta vez foi com uma outra cidade onde havia, no jardim do rei, uma árvore que
dava frutos de ouro e que agora está cada dia mais seca!
O Diabo riu gostosamente e respondeu:
- Isto também é verdade, minha avó! E sabe por que a árvore secou? Porque em
baixo dela há um rato que diariamente rói suas raízes. Se matarem o rato, a
árvore ficará verde outra vez. Se o deixarem lá, ela ficará cada dia mais
seca, até morrer!
Depois de dizer isso, Satanás ajeitou de novo a cabeça no colo da avó e, logo,
embalado pelo cafuné, dormia outra vez. A velhinha aproveitou então para
arrancar o terceiro fio e ele, acordando por causa da dor, gritou furioso:
- Ai, minha avó! Seus sonhos vão acabar me deixando careca! O que foi desta
vez?
- Sonhei com um barqueiro - disse a avó - que se queixava de ficar eternamente
passando gente de uma margem para outra< do rio sem nunca encontrar alguém
que o substituísse nesse trabalho sem fim!
- Ah! - respondeu o Diabo, dando outra gargalhada. - Esse barqueiro é um bobo!
Se ele quiser sair de lá, é preciso apenas que abandone os remos na mão da
primeira pessoa que aparecer pedindo para passar à outra margem do rio! A
pessoa não terá outro remédio senão tomar o lugar do barqueiro!
Como já estava de posse dos três fios de cabelo, e já havia obtido as respostas
para as três perguntas, a velhinha finalmente deixou Satanás dormir sossegado.
Logo de manhã, dizendo ao neto que ia buscar água, a avó do Diabo saiu do
inferno e retirou a formiguinha da dobra da saia, restituindo ao Filho da Sorte
a forma humana. De posse das três respostas, o rapaz pegou os três fios de
cabelo de ouro e, depois de agradecer muito à -velhinha, iniciou o caminho de
volta.
Logo chegava outra vez à margem do grande rio e o barqueiro, ansioso, perguntou
pela sua resposta.
- Primeiro você precisa me levar ao outro lado - respondeu o rapaz.
E, assim que o barqueiro o atravessou, o moço ensinou-lhe como deveria fazer
para escapar da sina de ser barqueiro eternamente. Muito feliz, o homem
agradeceu a ajuda e o Filho da Sorte seguiu seu caminho.
Depois de alguns dias, chegava ao portão da cidade onde existia a árvore que
dava frutos de ouro. Ensinou à sentinela o que se devia fazer para recuperar
a árvore, e o homem, agradecido, deu-lhe como recompensa dois jumentos
carregados de ouro e pedras preciosas.
Mais à frente, passou outra vez pelo portão da cidade cuja fonte de vinho
havia secado. A sentinela logo indagou da resposta e o moço ensinou-lhe o que
fazer, conforme havia ouvido da boca de Satanás. Muito feliz, o guarda deu-lhe
mais dois jumentos carregados de ouro e lá se foi o Filho da Sorte, rumo ao
reino de seu sogro.
Chegou ao palácio muito satisfeito, pois, além de haver cumprido a façanha
exigida, estava agora muito rico.
A princesa, sua esposa, o recebeu com muita alegria e o imperador, depois de
ter em mãos os três cabelos de ouro e ver a riqueza que o genro trazia,
permitiu que ele vivesse com sua filha e o tornou príncipe.
Tudo ia muito bem no palácio, mas o imperador era muito ambicioso e morria de
curiosidade para descobrir como e onde o genro havia conseguido tantas
riquezas.
Um dia, não resistindo mais, acabou perguntando, e o Filho da Sorte lhe
respondeu:
- Foi muito fácil, meu sogro! No caminho para o inferno há um grande rio onde
está sempre um barqueiro que atravessa todas as pessoas. É só pedir para ele
atravessá-lo e colher, na margem de lá, todo o ouro que puder carregar, pois o
ouro ali é a areia do chão!
- E eu posso ir até lá pegar ouro para mim também? - perguntou o imperador.
- Claro, meu sogro! - respondeu o rapaz. - É só falar com o barqueiro!
O ganancioso imperador saiu logo na ma-nhã seguinte, ansioso por encontrar o
lugar onde havia tanta riqueza. Viajou por vários dias e, de fato, acabou
encontrando o barqueiro. Este, que aguardava ansiosamente o aparecimento de
alguém, assim que o imperador lhe pediu que o atravessasse, entregou-lhe com
satisfação os remos e disse: – Atravesse você mesmo, ora! Movido pela ambição,
o imperador aceitou a tarefa e saiu remando, enquanto o bar-queiro, feliz da
vida, saía por esse mundo afora, livre outra vez.
E dizem que até hoje o imperador está lá, Cumprindo a eterna tarefa de
atravessar gente de um lado para outro do rio.
Quanto ao Filho da Sorte, viveu feliz por muitos e muitos anos, junto com a
princesa, sua amada esposa.
Texto III — Os sete corvos
Os setes corvos- Irmãos Grimm
Um homem tinha sete filhos e nunca tinha uma filha, por mais
que desejasse. Até que, finalmente, sua mulher lhe deu esperanças de novo e,
quando a criança veio ao mundo, era uma menina. A alegria foi enorme, mas a
criança era franzina e miúda e, por causa dessa fraqueza, foi preciso que lhe
dessem logo os sacramentos. O pai mandou um dos filhos ir correndo até a fonte,
buscar água para o batismo. Os outros seis foram atrás do irmão e, como cada um
queria ser o primeiro a puxar a água para cima, acabaram deixando o balde cair
no fundo do poço. Aí eles ficaram assustados, sem saber o que deviam fazer, e
nenhum dos sete tinha coragem de voltar para casa. Foram ficando por lá, sem
sair do lugar.
Como estavam demorando muito, o pai foi ficando cada vez mais impaciente e
disse: - Na certa ficaram brincando e se esqueceram de voltar, aqueles moleques
levados...
Começou a ficar com medo de que a menininha morresse sem ser batizada e, com
raiva, gritou:
- Tomara que eles todos virem corvos! Mal o pai acabou de dizer essas palavras,
ouviu um barulho de asas batendo no ar, por cima da cabeça. Levantou os olhos e
viu sete corvos negros como carvão. voando de um lado para outro.
Os pais ficaram tristíssimos, mas não conseguiram fazer nada para quebrar o
encanto.
Felizmente, puderam se consolar um pouco com sua filhinha querida, que logo
recuperou as forças e cada dia ia ficando mais bonita. Durante muito tempo, ela
ficou sem saber que tinha tido irmãos, porque os pais tinham o maior cuidado de
nunca falar nisso. Mas um dia, ela ouviu por acaso umas pessoas comentando que
era uma pena que uma menina assim tão bonita como ela fosse a responsável pela
infelicidade dos irmãos.
A menina ficou muito aflita e foi logo perguntar aos pais se era verdade que
ela já tinha tido irmãos, e o que tinha acontecido com eles. Os pais não
puderam continuar guardando segredo. Mas explicaram que o que aconteceu tinha
sido um desígnio do céu, e que o nascimento dela não tinha culpa de nada. Só
que a menina começou a ter remorsos todos os dias e resolveu que precisava dar
um jeito de livrar os irmãos do encanto. Não sossegou enquanto não saiu
escondida, tentando encontrar algum sinal deles em algum lugar, custasse o que
custasse. Não levou quase nada: só um anelzinho como lembrança dos pais, uma
garrafinha d'água para matar a sede e uma cadeirinha para descansar.
Andou, andou, andou, cada vez para mais longe, até o fim do mundo. Aí, ela
chegou junto do sol. Mas ele era quente demais e muito terrível, porque comia
os próprios filhos. Ela saiu correndo, fugindo, para bem longe, até que chegou
junto da lua. Mas a lua era fria demais e muito malvada e cruel. Assim que viu
a menina, disse:
- Huuummm sinto cheiro de carne humana...
A menina saiu correndo bem depressa, fugindo para bem longe, até que chegou
junto das estrelas.
As estrelas foram muito amáveis e boazinhas com ela, cada uma sentada em uma
cadeirinha separada. Então, a estrela da manhã se levantou, deu um ossinho de
galinha à menina e disse:
- Sem este ossinho, você não vai conseguir abrir a montanha de vidro. E é na
montanha de vidro que estão os seus irmãos.
A menina pegou no ossinho, embrulhou-o com todo cuidado num lenço e continuou
seu caminho, até que chegou à montanha de vidro. A porta estava bem fechada,
trancada com chave, e ela resolveu pegar o ossinho de galinha que estava
guardado no lenço. Mas quando desembrulhou, viu que não tinha nada dentro do
pano e que ela tinha perdido o presente que as boas estrelas tinham dado. Ficou
sem saber o que fazer. Queria muito salvar os irmãos, mas não tinha mais a
chave da montanha de vidro. Então, a boa irmãzinha pegou uma faca, cortou um
dedo mindinho, enfiou na fechadura e deu um jeito de abrir a porta. Assim que
entrou, um gnomo veio ao seu encontro e lhe perguntou:
- Minha filha, o que é que você está procurando?
- Procuro meus irmãos, os sete corvos - respondeu ela. O gnomo então disse:
- Os senhores Corvos não estão em casa, mas se quiser esperar até que eles
cheguem, entre e fique à vontade.
Lá em cima, o gnomo pôs a mesa para o jantar dos corvos, com sete pratinhos e
sete copinhos. A irmã então comeu um pouco da comida de cada prato e bebeu um
gole de cada copo. Mas no último, deixou cair o anelzinho que tinha trazido.
De repente, ouviu-se nos ares um barulho de gritos e batidas de asas. Então o
gnomo disse:
- São os senhores Corvos que estão chegando.
Eram eles mesmos, com fome e com sede. Foram logo em direção aos pratos e
copos. E, um por um, foram gritando:
- Quem comeu no meu prato? Quem bebeu no meu copo? Foi boca de gente, foi boca
de gente...
Mas quando o sétimo corvo acabou de esvaziar seu copo, o anel caiu lá de
dentro. Ele olhou bem e reconheceu que era um anel do pai e da mãe deles, e
disse:
- Quem dera que fosse a nossa irmãzinha, porque aí a gente ficava livre.
Quando a menina, que estava escondida atrás da porta, ouviu esse desejo,
apareceu de repente e todos os corvos viraram gente outra vez. Começaram todos
a se abraçar e se beijar e a se fazer mil carinhos e depois voltaram para casa
muito felizes.
Os setes corvos- Irmãos Grimm
Um homem tinha sete filhos e nunca tinha uma filha, por mais
que desejasse. Até que, finalmente, sua mulher lhe deu esperanças de novo e,
quando a criança veio ao mundo, era uma menina. A alegria foi enorme, mas a
criança era franzina e miúda e, por causa dessa fraqueza, foi preciso que lhe
dessem logo os sacramentos. O pai mandou um dos filhos ir correndo até a fonte,
buscar água para o batismo. Os outros seis foram atrás do irmão e, como cada um
queria ser o primeiro a puxar a água para cima, acabaram deixando o balde cair
no fundo do poço. Aí eles ficaram assustados, sem saber o que deviam fazer, e
nenhum dos sete tinha coragem de voltar para casa. Foram ficando por lá, sem
sair do lugar.
Como estavam demorando muito, o pai foi ficando cada vez mais impaciente e
disse: - Na certa ficaram brincando e se esqueceram de voltar, aqueles moleques
levados...
Começou a ficar com medo de que a menininha morresse sem ser batizada e, com
raiva, gritou:
- Tomara que eles todos virem corvos! Mal o pai acabou de dizer essas palavras,
ouviu um barulho de asas batendo no ar, por cima da cabeça. Levantou os olhos e
viu sete corvos negros como carvão. voando de um lado para outro.
Os pais ficaram tristíssimos, mas não conseguiram fazer nada para quebrar o
encanto.
Felizmente, puderam se consolar um pouco com sua filhinha querida, que logo
recuperou as forças e cada dia ia ficando mais bonita. Durante muito tempo, ela
ficou sem saber que tinha tido irmãos, porque os pais tinham o maior cuidado de
nunca falar nisso. Mas um dia, ela ouviu por acaso umas pessoas comentando que
era uma pena que uma menina assim tão bonita como ela fosse a responsável pela
infelicidade dos irmãos.
A menina ficou muito aflita e foi logo perguntar aos pais se era verdade que
ela já tinha tido irmãos, e o que tinha acontecido com eles. Os pais não
puderam continuar guardando segredo. Mas explicaram que o que aconteceu tinha
sido um desígnio do céu, e que o nascimento dela não tinha culpa de nada. Só
que a menina começou a ter remorsos todos os dias e resolveu que precisava dar
um jeito de livrar os irmãos do encanto. Não sossegou enquanto não saiu
escondida, tentando encontrar algum sinal deles em algum lugar, custasse o que
custasse. Não levou quase nada: só um anelzinho como lembrança dos pais, uma
garrafinha d'água para matar a sede e uma cadeirinha para descansar.
Andou, andou, andou, cada vez para mais longe, até o fim do mundo. Aí, ela
chegou junto do sol. Mas ele era quente demais e muito terrível, porque comia
os próprios filhos. Ela saiu correndo, fugindo, para bem longe, até que chegou
junto da lua. Mas a lua era fria demais e muito malvada e cruel. Assim que viu
a menina, disse:
- Huuummm sinto cheiro de carne humana...
A menina saiu correndo bem depressa, fugindo para bem longe, até que chegou
junto das estrelas.
As estrelas foram muito amáveis e boazinhas com ela, cada uma sentada em uma
cadeirinha separada. Então, a estrela da manhã se levantou, deu um ossinho de
galinha à menina e disse:
- Sem este ossinho, você não vai conseguir abrir a montanha de vidro. E é na
montanha de vidro que estão os seus irmãos.
A menina pegou no ossinho, embrulhou-o com todo cuidado num lenço e continuou
seu caminho, até que chegou à montanha de vidro. A porta estava bem fechada,
trancada com chave, e ela resolveu pegar o ossinho de galinha que estava
guardado no lenço. Mas quando desembrulhou, viu que não tinha nada dentro do
pano e que ela tinha perdido o presente que as boas estrelas tinham dado. Ficou
sem saber o que fazer. Queria muito salvar os irmãos, mas não tinha mais a
chave da montanha de vidro. Então, a boa irmãzinha pegou uma faca, cortou um
dedo mindinho, enfiou na fechadura e deu um jeito de abrir a porta. Assim que
entrou, um gnomo veio ao seu encontro e lhe perguntou:
- Minha filha, o que é que você está procurando?
- Procuro meus irmãos, os sete corvos - respondeu ela. O gnomo então disse:
- Os senhores Corvos não estão em casa, mas se quiser esperar até que eles
cheguem, entre e fique à vontade.
Lá em cima, o gnomo pôs a mesa para o jantar dos corvos, com sete pratinhos e
sete copinhos. A irmã então comeu um pouco da comida de cada prato e bebeu um
gole de cada copo. Mas no último, deixou cair o anelzinho que tinha trazido.
De repente, ouviu-se nos ares um barulho de gritos e batidas de asas. Então o
gnomo disse:
- São os senhores Corvos que estão chegando.
Eram eles mesmos, com fome e com sede. Foram logo em direção aos pratos e
copos. E, um por um, foram gritando:
- Quem comeu no meu prato? Quem bebeu no meu copo? Foi boca de gente, foi boca
de gente...
Mas quando o sétimo corvo acabou de esvaziar seu copo, o anel caiu lá de
dentro. Ele olhou bem e reconheceu que era um anel do pai e da mãe deles, e
disse:
- Quem dera que fosse a nossa irmãzinha, porque aí a gente ficava livre.
Quando a menina, que estava escondida atrás da porta, ouviu esse desejo,
apareceu de repente e todos os corvos viraram gente outra vez. Começaram todos
a se abraçar e se beijar e a se fazer mil carinhos e depois voltaram para casa
muito felizes.
Texto IV — Os dois irmãos
Conto mais longo e complexo, indicado especialmente para anos finais e Ensino Médio, com aventura, traição, coragem, reconhecimento e justiça.
Texto IV: Os dois Irmãos-
Era uma vez dois irmãos, um rico e outro pobre. O rico era
ourives, e malvado até não poder mais. O pobre ganhava a vida fabricando
vassouras, e era bom e honesto. O pobre tinha dois filhos, dois gêmeos
iguaizinhos como duas gotas d'água. De vez em quando, eles iam até à casa do
rico e, às vezes, ganhavam umas sobras de comida.
Um dia, o fabricante de vassouras foi até o bosque apanhar uns gravetos de
bétula e viu um pássaro todo dourado, mais bonito do que qualquer outra ave que
ele jamais tivesse visto. Pegou uma pedra, jogou nele, e atingiu o pássaro, mas
de raspão. Uma pena caiu no chão e o animal voou e foi embora. O homem pegou a
pena e a levou até o irmão, que olhou para ela e disse:
- Mas é ouro puro! E deu muito dinheiro por ela.
No dia seguinte, o fabricante de vassouras subiu numa bétula, para arrancar
alguns galhos. De repente, viu o mesmo pássaro sair voando da árvore. Olhou em
volta e acabou encontrando um ninho com um ovo dentro, um ovo de ouro. Ele
pegou o ovo, levou para casa e o mostrou ao irmão, que mais uma vez disse:
- É ouro puro! E deu a ele tudo o que o ovo valia. Finalmente, o ourives disse:
- Gostaria de ter esse pássaro.
Pela terceira vez, o fabricante de vassouras foi até o bosque. Novamente, viu o
pássaro dourado, desta vez pousado num galho, e jogou uma pedra nele, que caiu.
Levou o pássaro para o irmão, que lhe deu um dinheirão.
Agora vou poder dar um jeito em minha vida - pensou o fabricante de vassouras.
E foi para casa.
Acontece que o ourives era esperto e sabia uma porção de coisas. Sabia que tipo
de pássaro era aquele. Chamou a mulher e disse:
- Quero que você asse este pássaro com todo cuidado e não deixe se perder nem
um pedacinho dele. Quero comer ele todo, sozinho.
Fique sabendo que esse pássaro não era como os outros. Tinha uma coisa
maravilhosa: quem comesse o coração e o fígado dele passaria a achar, todas as
manhãs, uma moeda de ouro debaixo do travesseiro.
A mulher limpou o pássaro e o pôs num espeto para assar. Enquanto ele estava
assando, ela teve que sair da cozinha por causa de algum outro trabalho, e bem
nessa hora os filhos do fabricante de vassouras entraram correndo. Pararam do
lado do fogo, rodaram o espeto algumas vezes e, quando dois pedacinhos pequenos
caíram na panela, um dos dois meninos disse:
- Vamos comer esses pedacinhos? Estou com tanta fome E ninguém vai reparar.
E puseram os dois pedacinhos na boca. Quando a mulher voltou, viu que eles
tinham comido alguma coisa e perguntou: - O que é que vocês andaram comendo?
- Uns pedacinhos que caíram dessa ave - disseram eles.
--Eram o coração e o fígado! - gritou a mulher, aflita.
Como ela não queria que o marido desse falta e ficasse zangado, rapidamente
matou um frango, tirou o coração e o fígado e os pôs dentro do pássaro dourado.
Quando a ave ficou pronta, ela a serviu ao ourives, que comeu tudo sozinho. Mas
na manhã seguinte, quando ele pôs a mão debaixo do travesseiro, esperando
encontrar uma moeda de ouro, não havia nada diferente de todos os outros dias.
Os dois meninos nem desconfiavam de sua boa fortuna. Quando se levantaram no
dia seguinte, alguma coisa caiu no chão, tilitando. Quando olharam, viram que
eram duas moedas de ouro. Mostraram ao pai, que ficou muito espantado:
- Que será isso? - perguntou. Mas, no dia seguinte, quando acharam mais duas, e
mais duas na outra manhã, e assim por diante, ele resolveu ir procurar o irmão
e contar aquele caso estranho.
Imediatamente, o ourives descobriu que as crianças tinham comido o fígado e o
coração do pássaro dourado. Mas ele era um homem invejoso e sem piedade e, para
se vingar, disse ao pai dos meninos:
- Seus filhos fizeram um pacto com o diabo. Não fique com esse ouro, nem deixe
que ele fique guardado em sua casa, porque o diabo já se apossou de seus filhos
e, se você deixar, vai acabar destruindo você também.
O pai tinha muito medo do diabo. Por mais que odiasse fazer uma coisa dessas,
levou os gêmeos para a floresta e lá, com o coração apertado, largou os dois.
As crianças andaram e andaram, procurando o caminho de casa, mas não
conseguiram achar. Quanto mais andavam, mais se perdiam. Finalmente,
encontraram um caçador, que perguntou:
- Quem são vocês? De onde vocês vêm?
- Somos os filhos do pobre fabricante de vassouras - responderam.
E contaram a ele que o pai não podia mais ficar com eles em casa, porque todas
as manhãs apareciam duas moedas de ouro debaixo dos travesseiros deles.
- Não há nada de mal nisso - disse o caçador - desde que vocês continuem sendo
bons e honestos e não comecem a ficar preguiçosos.
O bom homem gostou das crianças. Como não tinha filhos, resolveu tomar conta
dos meninos e disse:
- Eu vou ser pai de vocês e criá-los.
E fez isso mesmo: criou os dois e os ensinou a caçar. Eles continuaram a achar
moedas de ouro todas as manhãs, mas o caçador as guardava com cuidado, para o
caso de algum dia eles precisarem.
Um dia, quando eles já tinham crescido e estavam uns homens feitos, o pai de
criação os levou à floresta e disse:
- Hoje eu vou testar a perícia de vocês como atiradores. Se passarem no teste,
deixarão de ser aprendizes e eu vou declará-los mestres-caçadores.
Foram todos para o esconderijo de caça e ficaram um tempão à espera, de tocaia,
mas não apareceu nenhum animal. Depois, o caçador viu que vinha no céu um bando
de gansos selvagens, voando numa formação em triângulo, e disse a um dos
rapazes:
- Abata um em cada ponta. O rapaz acertou e passou no teste.
Daí a pouco, outro bando veio chegando, desta vez voando na forma do número
dois.
O caçador disse ao outro irmão que acertasse um ganso em cada canto, e ele
também passou no teste. Diante disso, o pai de criação exclamou:
- Muito bem! Vocês agora são mestres-caçadores.
Então os dois irmãos foram juntos para a floresta, pensaram, conversaram muito
e combinaram um plano. De noite, disseram ao pai de criação:
- Resolvemos que não vamos tocar em um único bocado da comida enquanto o senhor
não nos fizer um favor.
- E qual é esse favor? - perguntou ele.
- Já aprendemos bem nosso ofício - replicaram. - Agora devemos nos por à prova,
nós mesmos. Queremos sair para correr mundo.
O velho ficou feliz e respondeu:
- Vocês falam como caçadores de verdade. Era isso mesmo o que eu esperava.
Podem ir. Tenho certeza de que vão se dar muito bem.
E então eles comeram e beberam juntos, muito alegres.
Quando chegou o dia em que tinham resolvido partir, o pai de criação deu a cada
um uma boa arma e um cachorro, e disse que eles levassem consigo todas as
moedas de ouro que quisessem, daquelas que estavam guardadas. Seguiu com eles
por uma parte do caminho e, na despedida, deu aos dois uma faca com a lâmina
muito brilhante.
- Se algum dia vocês se separarem - recomendou -, enfiem esta faca numa árvore
na encruzilhada. Dessa maneira, se um de vocês voltar, vai poder saber como
está passando o irmão ausente, porque o lado da lâmina que estiver na direção
em que ele foi vai enferrujar se ele morrer. Mas, enquanto ele estiver vivo,
continuará brilhante.
Os dois irmãos continuaram, indo cada vez mais para longe, e chegaram a uma
floresta tão grande que não foi possível atravessá-la em um único dia. Pararam
para passar a noite e comeram o que tinham em suas sacolas de caça. Depois,
caminharam o outro dia inteiro, mas ainda não conseguiram chegar ao fim da
floresta. Não tinham mais nada para comer e um dos irmãos disse:
- Vamos ter que abater alguma caça ou ficar com fome.
Carregou a arma e olhou em volta. Quando uma velha lebre apareceu, ele fez
pontaria, mas a lebre gritou:
- Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Saiu correndo para dentro de uma moita e voltou com dois filhotes de lebre. As
lebrinhas brincavam tão alegres e eram tão engraçadinhas que os caçadores não
tiveram coragem de matá-las. Então, resolveram poupá-las e elas começaram a
segui-los.
Daí a pouco, apareceu uma raposa. Eles iam atirar, mas a raposa gritou: - Bom
caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
É claro que, em seguida, trouxe duas raposinhas. De novo, os caçadores não
tiveram coragem de matá-las e disseram que elas podiam fazer companhia às
lebres.
Não tinha se passado muito tempo e um lobo saiu do mato. Os caçadores apontaram
a arma, mas o lobo gritou:
- Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Os caçadores puseram os dois filhotes de lobo com os outros bichos e todos
foram andando atrás deles.
Depois apareceu um urso, que queria continuar a viver e gritou: - Bom caçador,
deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Os dois ursinhos foram levados para junto dos outros animais, e agora já eram
oito. E quem veio no fim de todos? Apareceu um leão, sacudindo a juba. Mas não
assustou os caçadores. Eles fizeram pontaria e, bem como os outros tinham feito,
o leão disse:
- Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Também trouxe os dois filhotes dele e agora os caçadores tinham dois leões,
dois ursos, dois lobos, duas raposas e duas lebres que iam atrás deles e os
serviam. Só que isso não matava a fome. Então eles disseram às raposas:
- Todo mundo sabe que vocês são espertas e sabidas. Pois então, tratem de nos
arranjar comida.
Elas responderam:
- Perto daqui tem uma aldeia onde já nos servimos de galinhas, uma ou duas
vezes. Vamos mostrar o caminho a vocês.
Assim, eles foram até a aldeia, compraram alguma coisa para comer, deram comida
também aos animais e continuaram a viagem. As raposas conheciam bem a região,
porque já tinham andado vigiando todos os galinheiros por ali. Por isso, sempre
sabiam mostrar o caminho aos caçadores.
Andaram a esmo durante algum tempo, mas os caçadores não conseguiram encontrar
nenhum emprego que permitisse que todos ficassem juntos. No fim, disseram:
- Não tem jeito. Vamos ter que nos separar.
Dividiram os animais, de modo que cada um ficou com um leão, um urso, um lobo,
uma raposa e uma lebre. Depois, se despediram, prometeram se amar como bons
irmãos até a morte, e enfiaram numa árvore a faca que o pai de criação tinha
dado a eles. Depois, um foi para leste, outro foi para oeste.
Seguido por seus animais, um dos irmãos chegou a uma cidade que estava cheia de
faixas de crepe preto dependuradas por toda parte. Foi até uma estalagem e
perguntou onde podia deixar os animais. O estalajadeiro os botou num celeiro
que tinha um buraco na parede. A lebre se esgueirou pelo buraco e acabou
conseguindo um repolho. A raposa pegou uma galinha e, depois de comer, acabou
pegando também um galo. O lobo, o urso e o leão eram grandes demais para passar
pelo buraco, por isso o estalajadeiro teve que leválos até um lugar onde havia
uma vaca deitada no pasto, e eles comeram até se fartar. Finalmente, quando
todos os animais já estavam alimentados e abrigados, o caçador perguntou ao
estalajadeiro porque toda a cidade estava de luto. O estalajadeiro respondeu:
- Porque a filha única do nosso rei vai ter que morrer amanhã.
- Ela está tão doente assim? - perguntou o caçador.
- Não - disse o estalajadeiro. - Ela tem ótima saúde, mas, de qualquer jeito,
vai morrer.
- Como pode ser uma coisa dessas? - quis saber o caçador.
- Não muito longe da cidade, existe uma montanha. Nessa montanha vive um dragão
e todos os anos ele precisa ter uma donzela imaculada. Se não, ele devasta todo
o país. Todas as donzelas já foram dadas ao dragão, agora só resta a filha do
rei. Por isso, filha do rei ou não, ela não pode ser poupada. Amanhã, ela vai
ser entregue ao dragão.
- Mas por que ninguém mata esse dragão? - perguntou o caçador.
- É uma história muito triste - disse o estalajadeiro. - Muitos cavaleiros já
tentaram, mas todos perderam a vida. O rei prometeu a mão de sua filha em
casamento para quem matar o dragão e, além disso, o reino todo de herança
quando o velho rei morrer.
O caçador não disse mais nada. Porém, no dia seguinte, saiu com os animais e
escalou a montanha do dragão. Lá no alto, havia uma igreja e no altar havia
três taças, cheias até a borda, e ao lado havia uma inscrição que dizia:
"Quem esvaziar estas taças será o homem mais forte da terra e poderá
brandir a espada que está enterrada do lado de fora da porta."
O caçador não bebeu. Saiu e achou a espada enterrada, mas não conseguiu
arredá-la do lugar. Voltou e esvaziou as taças. Aí ficou bem forte, conseguiu
tirar a espada do chão e manejá-la à vontade.
Quando chegou a hora de entregar a donzela ao dragão, vieram com ela o rei, o
marechal e toda a corte. De longe, ela avistou o caçador na montanha do dragão
e achou que era o dragão esperando por ela. Não queria subir, mas isso ia ser a
desgraça de toda a cidade. Finalmente, ela acabou se conformando e começando
sua amarga subida. Chorando, o rei e os cortesãos voltaram para casa, mas o
marechal ficou, pois tinha instruções de acompanhar tudo à distância.
No momento em que a filha do rei alcançou o alto da montanha, viu que quem
estava lá esperando por ela não era o dragão, mas o jovem caçador, que a
consolou e prometeu salvá-la.
Para começar, ele a levou para a igreja e a trancou lá dentro. Daí a pouco, o
dragão de sete cabeças arremeteu com um poderoso rugido. Quando viu o caçador,
ficou surpreso e perguntou:
- O que é que você está fazendo na minha colina? O caçador respondeu: - Vim
para combater você. O dragão disse:
- Alguns cavaleiros já morreram aqui em cima, e num instante eu vou dar cabo de
você também.
Dizendo isso, cuspiu chamas pelas suas setes goelas. A idéia dele era incendiar
o capim seco por ali, de modo que o caçador morresse sufocado no calor e na
fumaça, mas os animais vieram correndo e pisotearam o fogo até apagar.
Em seguida, o dragão atacou, mas o caçador brandiu a espada com tanta agilidade
e rapidez que ela cantou no ar e cortou três cabeças do monstro.
Aí o dragão ficou zangado de verdade. Levantou-se no ar, lançando chamas
ferozes, e se abateu sobre o caçador bem no instante em que ele brandiu outra
vez a espada e cortou mais três cabeças. O dragão caiu no chão. Mas, apesar de
toda a fraqueza que sentia, atacou de novo. Reunindo suas últimas forças, o
caçador conseguiu cortar fora a cauda do monstro, mas depois disso não podia
lutar mais. Então, chamou os animais, que fizeram o dragão em pedaços.
Depois que a batalha terminou, o caçador abriu a porta da igreja. A filha do
rei jazia no chão, porque tinha desmaiado de medo durante a luta. Ele a levou
para fora e, quando ela voltou a si e abriu os olhos, ele mostrou a ela os
pedaços do dragão e lhe disse que estava salva. Ela ficou muito feliz e disse:
- Então você vai ser meu marido muito querido, porque meu pai prometeu minha
mão ao homem que matasse o dragão.
Para recompensar os animais, ela tirou do pescoço o colar de coral e o dividiu
entre eles. O leão ficou com o fecho de ouro. Ao caçador, ela deu um lenço, com
o nome dela bordado. O caçador cortou as sete línguas do dragão, enrolou-as no
lenço e as guardou com cuidado.
Depois disso, como ele estava exausto do incêndio e da luta, disse à filha do
rei: - Nós dois estamos caindo de cansaço. Vamos dormir um pouco. Ela
concordou, eles se deitaram no chão e o caçador disse ao leão: - Fique de
guarda. Não deixe ninguém nos atacar enquanto estivermos dormindo.
E os dois adormeceram. O leão deitou ao lado deles para montar guarda, mas,
como também estava muito cansado da luta, chamou o urso e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
O urso deitou ao lado dele, mas também estava muito cansado. Por isso, chamou o
lobo e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
O lobo deitou ao lado dele, mas também estava muito cansado. Por isso, chamou a
raposa e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
A raposa deitou ao lado dele, mas também estava muito cansada. Por isso, chamou
a lebre e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
A lebre se sentou ao lado dela, mas, coitadinha, também estava muito cansada e
não tinha ninguém para quem pudesse passar adiante a guarda. Mas, mesmo assim,
acabou dormindo também. E foi assim que, em pouco tempo, o caçador, a filha do
rei, o leão, o urso, o lobo, a raposa e a lebre, todos estavam dormindo a sono
solto.
Quando o marechal, que fora instruído para acompanhar tudo à distância, não viu
o dragão sair voando com a filha do rei e achou que tudo estava tranqüilo na
montanha, tomou coragem e foi até lá. Então viu o dragão estraçalhado e, ali
por perto, a filha do rei e um caçador com todos os seus animais, todos
dormindo profundamente. Como ele era um homem mau e ímpio, tirou a espada,
cortou fora a cabeça do caçador, pegou a filha do rei no colo e desceu a
montanha com ela. Quando chegaram lá embaixo, ela acordou sobressaltada e o
marechal disse:
- Você está em meu poder. Tem que dizer que fui eu quem matou o dragão.
- Não posso dizer uma coisa dessas - respondeu ela. - Foi um caçador com seus
animais.
Ouvindo isso, ele puxou a espada e ameaçou matá-la se ela não prometesse
confirmar a história dele. Depois, a levou até o rei, que achava que o dragão
tinha despedaçado sua filha adorada e não coube em si de alegria ao vê-la viva.
O marechal disse:
- Matei o dragão, salvei sua filha e todo o reino. Agora ela tem que casar
comigo, como o senhor prometeu.
O rei perguntou à filha: - É verdade?
- É - disse ela deve ser... Mas o casamento não pode ser celebrado antes de um
ano e um dia.
Sabe, ela achava que durante esse tempo devia ter alguma notícia de seu amado
caçador.
Na montanha do dragão, os animais ainda estavam dormindo ao lado do corpo do
seu dono morto. Aí veio uma abelha e pousou no focinho da lebre, mas a lebre a
espantou com a pata e continuou dormindo. Ela veio outra vez, e mais uma vez a
lebre a espantou e continuou a dormir. Mas quando a abelha veio pela terceira
vez e picou o focinho da lebre, ela acordou. E no instante que a lebre acordou,
acordou a raposa, e a raposa acordou o lobo, e o lobo acordou o urso, e o urso
acordou o leão. E quando o leão acordou e viu que a filha do rei tinha sumido e
seu dono estava morto, deu um rugido que parecia um trovão e perguntou:
- Quem fez isto? Urso, por que você não me acordou? O urso perguntou ao lobo: -
Por que você não me acordou? O lobo perguntou à raposa: - Por que você não me
acordou? A raposa perguntou à lebre: - Por que você não me acordou?
E como a coitadinha da lebre não podia jogar a culpa em cima de ninguém, ficou
sendo a única culpada. Iam todos avançar em cima dela, mas ela pediu:
- Não me matem. Eu posso devolver a vida ao nosso dono. Sei de uma montanha
onde cresce uma raiz e, se a gente puser essa raiz na boca de um ferido, ele
fica inteiramente curado de qualquer doença ou ferimento. Mas essa montanha
fica a duzentas horas daqui.
O leão disse: - Você tem vinte e quatro horas para ir e voltar com essa tal
raiz.
A lebre saiu à toda, feito uma flecha, e em vinte e quatro horas estava de
volta com a raiz. O leão pôs a cabeça do caçador no lugar, a lebre pôs a raiz
na boca do morto e no mesmo instante as partes se costuraram e ficaram juntas
outra vez, o coração começou a bater e a vida voltou.
Quando o caçador acordou, ficou tristíssimo de ver que a donzela tinha ido
embora.
- Na certa ela quis se livrar de mim - disse ele. - Aproveitou que eu estava
dormindo e foi embora.
O leão tinha estado com tanta pressa na hora de consertar o dono, que pôs a
cabeça dele ao contrário, de trás para frente. Mas o caçador estava tão ocupado
com seus pensamentos tristes sobre a filha do rei, que nem reparou. Lá pelo
meio-dia, quando ele foi comer, notou que a cabeça estava de frente para a
direção errada. Ficou muito intrigado com isso e perguntou aos animais o que é
que tinha acontecido enquanto ele estava dormindo. Então o leão contou a ele
que todos estavam tão cansados que acabaram dormindo e que, quando acordaram,
descobriram que ele estava morto, com a cabeça cortada, e que a lebre tinha ido
buscar a raiz da vida e que ele, leão, tinha colado a cabeça na posição errada
porque estava com pressa demais, mas agora ia corrigir o erro. Assim, ele
arrancou a cabeça do caçador outra vez, virou-a direito, e a lebre colou e
tratou da ferida com a raiz.
A partir desse dia, o caçador, sempre muito triste, passou a andar de um lado
para o outro com seus animais, fazendo-os dançar para as pessoas. Quando tinha
passado exatamente um ano, ele chegou à mesma cidade onde tinha salvo do dragão
a filha do rei. Desta vez, o lugar estava todo enfeitado com faixas vermelhas.
- Que quer dizer isso? - perguntou ao estalajadeiro. Há um ano, a cidade estava
toda pendurada com faixas de luto. Agora, está toda de vermelho. Por quê?
O estalajadeiro replicou:
- Há um ano, a filha de nosso rei ia ser entregue ao dragão, mas nosso marechal
lutou com o dragão e o matou, e amanhã eles se casam. Por isso é que a cidade
estava de preto, de luto, e agora está de vermelho, de alegria.
Ao meio-dia do dia do casamento, o caçador disse ao estalajadeiro:
- O senhor acredita que eu vou comer pão da mesa do rei, bem aqui na sua casa,
antes que o dia termine?
O estalajadeiro respondeu: - Aposto cem moedas de ouro como não vai.
O caçador topou a aposta e pôs em cima da mesa uma bolsa que tinha exatamente
as cem moedas de ouro. Depois, chamou a lebre e disse:
- Minha querida Pé-Leve, traga-me um pouco do pão que o rei come.
A lebre era o menor dos animais, não podia passar a ordem adiante para nenhum
outro, e disse para si mesma:
- Se eu for correndo pelas ruas sozinha, todos os cachorros carniceiros vão
sair me perseguindo.
E foi isso mesmo: os cachorros foram correndo atrás dela, com evidentes
intenções de encher sua pele de buracos. Mas ela deu um pulo assim - você não
viu? - e se meteu dentro da guarita do sentinela. O soldado nem viu que ela
estava lá.
Os cachorros chegaram e tentaram tirá-la dali, mas o soldado não gostou nada
daquilo e saiu atrás deles batendo com a coronha da espingarda até que eles
fugiram uivando e latindo. Quando a lebre viu que o caminho estava livre,
correu para dentro do palácio, foi direto aonde estava a filha do rei, sentou
debaixo da cadeira e começou a coçar o pé dela.
A moça achou que era seu cachorro e disse: - Passa fora! A lebre coçou o pé
dela mais uma vez e de novo ela disse: - Passa fora!
Mas a lebre não desanimou. Quando coçou o pé da filha do rei pela terceira vez,
a moça olhou para baixo e a reconheceu pelo coral no pescoço. Pegou o bichinho
no colo, levou-o até seu quarto e disse:
- Minha lebre querida, que é que eu posso fazer por você? Ela respondeu:
Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pão, dos
que o rei come.
Quando ouviu isso, a moça ficou contentíssima. Chamou o padeiro e mandou que
ele lhe trouxesse um pão, dos que o rei comia.
- Mas - disse a lebre - o padeiro precisa também entregar o pão, em meu lugar.
Se não, os cachorros carniceiros acabam comigo.
O padeiro levou o pão até a porta da estalagem.
Lá chegando, a lebre ficou de pé em suas patas traseiras, pegou o pão nas patas
da frente e o levou ao seu dono. Então o caçador disse ao estalajadeiro:
- Como vê, as cem moedas de ouro são minhas. O estalajadeiro ficou muito
espantado, mas o caçador continuou: - Sim, senhor! Tenho pão, mas agora quero
um pouco da carne que o rei come. O estalajadeiro disse: - Eis uma coisa que eu
queria ver... Mas dessa vez não propôs nenhuma aposta. O caçador chamou a
raposa e disse: - Raposinha, traga-me um pouco da carne assada que o rei come.
A raposa sabia todos os truques, esgueirou-se ao longo de muros, passou por
buracos de cercas, os cachorros nem a viram. Quando chegou ao palácio,
sentou-se embaixo da cadeira da filha do rei e coçou o pé dela. A moça olhou,
reconheceu a raposa por causa do coral no pescoço, e disse:
- Minha raposa querida, que é que eu posso fazer por você? Ela respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
da carne assada que o rei come.
Então a moça mandou chamar o cozinheiro e disse que ele preparasse um assado
como o rei comia e o levasse até a porta da estalagem. Depois, a raposa pegou a
bandeja, abanou bem a cauda para espantar as moscas que vinham atrás do assado,
e o levou até seu dono.
Aí, o caçador disse ao estalajadeiro:
- Como vê, senhor, tenho o pão e tenho a carne, mas agora quero a guarnição do
prato, bem como o rei come.
Chamou o lobo e disse:
- Caro lobo, traga-me um pouco da guarnição que acompanha esse assado que o rei
come.
O lobo foi direto ao palácio, porque não tinha medo de ninguém. Quando chegou
junto da filha do rei, deu um puxão no vestido dela, pelas costas. Ela teve que
se virar e olhar para ele, e logo o reconheceu, por causa do coral no pescoço.
Levou-o até seu quarto e perguntou:
- Meu lobo querido, que é que eu posso fazer por você? O lobo respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
da guarnição que acompanha o assado, bem como o rei come.
Então a moça mandou chamar o cozinheiro, que teve que preparar a guarnição, bem
como o rei comia, e levar até a porta da estalagem, onde o lobo tirou a
travessa da mão dele e a levou a seu dono.
Aí, o caçador disse ao estalajadeiro:
- Como vê, agora eu tenho pão, carne e acompanhamento, mas também quero uma
sobremesa, das que o rei come.
Chamou o urso e disse: - Caro urso, você gosta de doces. Traga-me um pouco da
sobremesa que o rei come.
O urso saiu trotando para o palácio e todo mundo saía da frente dele. Mas
quando chegou ao portão, os sentinelas o ameaçaram com seus mosquetes e não
queriam deixar que ele passasse. Ele ficou de pé nas patas traseiras e bateu
nas orelhas deles com as patas, para a direita e para a esquerda, e todos os
sentinelas caíram. Então ele foi direto para onde estava a filha do rei, ficou
bem atrás dela e deu uma rosnadinha suave. Ela olhou para trás, reconheceu o
urso, pediu-lhe que a seguisse até seu quarto e disse:
- Meu urso querido, que é que eu posso fazer por você? Ele respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
da sobremesa que o rei come.
Ela mandou chamar o confeiteiro e ordenou que ele preparasse uns doces como o
rei comia de sobremesa e levasse até a porta. Primeiro, o urso lambeu umas
ameixas açucaradas que enfeitavam os doces e tinham rolado de cima deles,
depois se levantou nas patas de trás, pegou a travessa e a levou até o dono.
O caçador então disse ao estalajadeiro:
- Como vê, agora tenho pão, carne, acompanhamentos e sobremesa, mas ainda quero
um pouco de vinho que o rei toma.
Chamou o leão e disse:
- Caro leão, você gosta de beber de vez em quando. Traga-me então um pouco de
vinho, do que o rei toma.
O leão saiu passando pela rua e as pessoas correram para tudo quanto era lado.
Quando chegou ao palácio, os guardas tentaram lhe barrar a entrada, mas ele deu
um rugido e eles saíram correndo. Aí ele foi até os aposentos reais e bateu na
porta com o rabo. A filha do rei abriu e levou um susto quando viu o leão, mas
logo o reconheceu pelo fecho de ouro de seu colar de coral. Pediu que ele fosse
com ela até o quarto e perguntou:
- Meu leão querido, que é que eu posso fazer por você? Ele respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
do vinho que o rei toma.
Então ela mandou chamar o encarregado da adega e lhe ordenou que desse ao leão
um pouco do vinho que o rei tomava. Mas o leão disse:
- É melhor eu ir junto, para ter a certeza de que ele está pegando o vinho
certo.
Foi com o encarregado até a adega e, quando chegaram lá, o funcionário queria
pegar um pouco de vinho comum, do que os criados tomavam, mas o leão disse:
- Espere aí! Vou provar esse vinho. O encarregado deu meio litro ao leão e ele
bebeu tudo de um gole. Depois disse: - Não. Este não é o vinho certo.
O encarregado da adega olhou para ele espantado e foi então até outro barril,
que tinha o vinho reservado para o marechal do rei. O leão disse:
- Primeiro, vou provar esse vinho. Tirou meio litro, bebeu e disse: - Este é
melhor, mas ainda não é o vinho certo. Isso deixou o encarregado da adega
furioso. Tão furioso que disse:
- Como é que um animal estúpido desses pode querer entender alguma coisa de
vinho!
O leão deu uma patada tão forte atrás da orelha dele, que ele caiu sentado no
chão, fazendo um barulhão. Quando se levantou, não disse nada, mas levou o leão
até uma pequena adega separada, onde se guardava o vinho especial do rei, que
ninguém jamais tocava. O leão tirou meio litro e provou. Depois, disse:
- Ah, este sim pode ser o vinho certo.
Então, disse ao encarregado da adega que enchesse meia dúzia de garrafas, e
depois subiram novamente as escadas. Quando chegaram lá fora, o leão estava
ligeiramente alegre, e balançava de um lado para outro. O encarregado da adega
teve que carregar o vinho até a porta, onde o leão segurou a alça da cesta nos
dentes e levou o vinho até seu dono.
O caçador disse então ao estalajadeiro:
- Como vê, agora tenho pão, carne, acompanhamentos, sobremesa e vinho, como o
rei, e agora vou jantar com meus animais.
Sentou-se, comeu e bebeu, dividindo a comida e a bebida com a lebre, a raposa,
o lobo, o urso e o leão. Estava feliz, porque via que a filha do rei ainda o
amava. Quando acabou a refeição, disse para o estalajadeiro:
- Como vê, senhor, comi e bebi como o rei come e bebe. Agora, vou até o palácio
do rei casar com a filha dele.
O estalajadeiro se espantou: - Como é que pode? Ela está noiva, vai se casar
hoje mesmo.
O caçador tirou do bolso o lenço que a filha do rei tinha dado a ele lá na
montanha do dragão, e as sete línguas do monstro ainda estavam embrulhadas
nele.
- Vou conseguir isso - disse ele - com a ajuda do que tenho aqui na mão. O
estalajadeiro olhou para o lenço e duvidou:
- Estou disposto a acreditar em qualquer coisa, menos nisso. Aposto a minha
estalagem.
O caçador tirou da cintura uma bolsinha com mil moedas de ouro, colocou-a sobre
a mesa e disse:
- Aposto isto aqui contra a sua estalagem. Enquanto isso, o rei e sua filha
estavam sentados à mesa real.
- O que é que todos aqueles animais que ficaram entrando e saindo do palácio
queriam com você? - perguntou ele.
Ela respondeu:
- Estou proibida de dizer, mas o senhor faria muito bem se mandasse buscar o
dono desses animais.
O rei mandou um criado ir até a estalagem convidar o estranho para vir até o
palácio. O criado chegou assim que o caçador tinha acabado de fazer sua aposta
com o estalajadeiro.
O caçador disse ao estalajadeiro: - Como vê, o rei mandou seu criado me buscar,
mas eu não vou assim. E respondeu ao criado:
- Por gentileza, peça ao rei que me mande trajes reais e uma carruagem com seis
cavalos e criados que me sirvam.
Quando o rei ouviu a resposta, perguntou à filha: - Que é que eu faço agora?
- O senhor faria bem se mandasse buscá-lo, como ele diz respondeu.
Então o rei mandou os trajes reais, a carruagem com seis cavalos e criados para
servilo. Quando o caçador os viu chegar, disse ao estalajadeiro:
- Como vê, mandaram me buscar, como eu pedi.
Vestiu os trajes reais, apanhou o lenço com as línguas do dragão e foi para o
palácio. Quando o rei o viu chegar, perguntou à filha:
- Como devo recebê-lo?
- O senhor faria bem se andasse ao seu encontro - respondeu ela.
O rei se adiantou, foi ao encontro do caçador e o convidou a entrar. Os animais
foram atrás. O rei mandou que ele se sentasse a seu lado, perto de sua filha.
Do outro lado estava sentado o marechal, porque era o noivo, mas não reconheceu
o caçador. Então trouxeram as sete cabeças do dragão para mostrar a todos, e o
rei disse:
- O marechal cortou estas sete cabeças do dragão. Portanto, estou dando a ele a
mão de minha filha em casamento.
Ouvindo isso, o caçador se levantou, abriu as sete bocas e perguntou: - O que
aconteceu com as sete línguas do dragão?
O marechal ficou pálido de susto e não conseguia pensar em nenhuma resposta
para dar. Finalmente, aterrorizado, acabou dizendo:
- Dragões não têm línguas. O caçador disse:
- Seria muito melhor se quem não tivesse língua fossem os mentirosos. As
línguas de um dragão são a presa do matador do dragão.
Abriu o lenço e lá estavam, as sete. Aí ele pôs cada uma das línguas na boca em
que ela se encaixava, e todas se ajustaram perfeitamente. Depois, ele pegou o
lenço que tinha o nome da filha do rei bordado, mostrou a ela e lhe perguntou a
quem ela o tinha dado.
Ela respondeu: - Ao homem que matou o dragão.
Em seguida, ele chamou os animais, pegou os cordões de coral e o fecho de ouro
do leão, mostrou tudo à filha do rei e lhe perguntou a quem pertenciam. Ela
respondeu:
- O colar e o fecho de ouro eram meus. Eu os dividi entre os animais que
ajudaram a matar o dragão.
- Quando eu estava exausto e me deitei para descansar depois do combate, o
marechal veio e cortou minha cabeça enquanto eu dormia. Depois, carregou a
filha do rei e disse que quem tinha matado o dragão era ele: Isso é mentira,
como eu já provei, com as línguas, o lenço e o colar.
Em seguida, contou sua história. Contou como os animais o tinham salvo com uma
raiz milagrosa, como ele tinha andado a esmo durante um ano até voltar à mesma
cidade e como, então, tinha ficado sabendo pelo estalajadeiro que o marechal
estava enganando todo mundo. O rei então perguntou à filha:
- É verdade que quem matou o dragão foi este jovem?
- É, sim - respondeu ela. - Agora posso falar sobre o crime do marechal, pois
todos ficaram sabendo sem que eu dissesse nada. Ele me tinha feito prometer
guardar segredo. Por isso é que eu insisti para que o casamento não se
celebrasse antes de um ano e um dia.
O rei mandou reunir seus doze conselheiros e lhes pediu que julgassem o
marechal. A sentença o condenou a ser esquartejado por quatro bois. Dessa
forma, o marechal foi executado e o rei deu a mão da filha ao caçador, que
também foi nomeado regente de todo o reino. O casamento foi celebrado com
muitos festejos e o jovem rei mandou chamar o pai verdadeiro e o pai adotivo e
os cobriu de presentes. Também não se esqueceu do estalajadeiro, mas mandou
buscá-lo e disse:
- Como vê, senhor, casei-me com a filha do rei. Agora, sua estalagem é minha.
- De direito, é mesmo - concordou o estalajadeiro.
Mas o jovem rei disse:
- A misericórdia é mais importante que o direito. Pode ficar com sua estalagem.
E também vou lhe dar as mil moedas de ouro, de presente.
Aí tudo ficou bem com o jovem rei e a jovem rainha, que viveram felizes juntos.
Ele ia sempre caçar, porque gostava muito, e seus fiéis animais sempre iam com
ele.
Ora, acontece que havia uma floresta, não muito distante do palácio, que tinha
fama de ser encantada. O que se contava é que quem entrava lá custava muito a
sair. Mas o jovem rei queria muito ir caçar lá, e não deixou o velho rei em paz
enquanto não obteve a permissão para ir. E então, partiu, com um grande
séquito.
Quando chegou à floresta, viu uma corça branca e disse a seus homens: - Fiquem
aqui até que eu volte. Vou caçar aquela bela corça.
Entrou na floresta e apenas seus animais o seguiram. Os homens esperaram até
cair a noite. Como ele não voltava, eles foram para casa e disseram à jovem
rainha:
- O jovem rei foi perseguir uma corça branca na floresta encantada e não voltou
mais.
Quando ela ouviu isso, ficou muito preocupada. Enquanto isso, ele perseguia a
corça branca, mas não conseguia alcançá-la. Ela parecia estar ao alcance de um
tiro às vezes, mas quando ele fazia pontaria e ia atirar, de repente a via
dando saltos mais adiante, cada vez mais distante, até que acabou por desaparecer
por completo.
Vendo que estava na floresta profunda, muito longe, ele pegou sua trompa de
caça e tocou. Mas não houve resposta, pois seus homens não o ouviram. Quando
caiu a noite, ele compreendeu que não ia poder voltar naquele dia. Então, apeou
do cavalo, acendeu uma fogueira debaixo de uma árvore e se preparou para passar
a noite.
Quando estava sentado com os animais à beira do fogo, achou que ouviu de
repente uma voz humana. Procurou, mas não conseguiu ver nada. Depois, ouviu um
gemido que parecia vir do alto. Olhou e viu uma velha sentada na árvore:
- Ai, ai! - chorava ela. - Estou com tanto frio!
- Pois desça e venha se esquentar - chamou ele.
- Não - disse ela. - Seus animais iam me morder.
- Não se preocupe, vovó - disse ele. - Eles são mansos, não vão lhe fazer nada,
pode descer.
Mas a velha era uma bruxa e disse:
- Vou quebrar uma varinha e jogar aí embaixo. Bata nas costas deles, que assim
não me machucam.
Ela jogou a varinha e ele bateu nos animais que, num instante, ficaram imóveis,
transformados em pedra. Sem os animais para atrapalhar, ela num instante pulou
lá de cima e tocou também o caçador com a varinha. No mesmo momento, ele virou
pedra. Aí, dando uma gargalhada horrível, ela o arrastou, e aos animais, para
um barranco onde já havia uma porção daquelas pedras.
Quando o jovem rei não voltou, a preocupação e o medo da jovem rainha foram
ficando cada vez maiores. Ora, acontece que, nessa mesma ocasião, o outro
irmão, que tinha ido para o leste quando se separaram, estava chegando a esse
reino. Depois de procurar emprego sem encontrar, resolveu ir de vila em vila
com os animais, que dançavam para distrair as pessoas. Depois de algum tempo,
ele se lembrou da faca que eles tinham enfiado no tronco da árvore quando se
separaram, e resolveu ir até lá para saber como estava o irmão. Quando chegou
lá, viu que o lado da lâmina que correspondia ao irmão estava metade
enferrujado e metade brilhante.
Isso é mau - pensou -, algo deve ter acontecido a meu irmão, mas talvez eu
ainda possa salvá-lo, porque metade da lâmina está brilhante.
Saiu caminhando para oeste com os animais e, quando chegou aos portões da
cidade, um sentinela veio lhe perguntar se queria que mandasse anunciar sua
chegada para a jovem rainha, sua esposa, porque ela estava muito preocupada,
com medo de que ele tivesse morrido na floresta encantada. É que o jovem rei e
o irmão eram tão parecidos que o sentinela os confundiu, ainda mais porque o
irmão também tinha aquele bando de animais selvagens que o seguiam. Ele
entendeu o erro do sentinela e pensou: é melhor eu fazer de conta que sou ele,
assim fica mais fácil salvá-lo.
Por isso, deixou que o sentinela o levasse ao palácio, onde foi recebido com
muita alegria. Sua jovem esposa também achou que era o marido dela e perguntou
porque ele tinha demorado tanto.
- Eu me perdi na floresta e não consegui achar o caminho - respondeu ele.
De noite, ele foi levado ao leito real, mas colocou uma espada de dois gumes
entre ele e a jovem rainha. Ela não sabia porque, mas ficou com medo de
perguntar.
E assim se passaram alguns dias, em que ele tentou descobrir tudo o que podia
sobre a floresta encantada. Depois disse:
- Vou lá caçar novamente.
O rei e a jovem rainha tentaram dissuadi-lo, mas ele insistiu e partiu com um
grande séquito. Quando chegou à floresta, aconteceu com ele a mesma coisa que
tinha acontecido ao irmão. Viu uma corça branca e disse a seus homens:
- Fiquem aqui até eu voltar. Vou caçar essa bela corça branca. Cavalgou para
dentro da floresta, seguido pelos animais.
Mas não conseguiu alcançar a corça e acabou se embrenhando tão profundamente na
mata que teve que passar a noite lá. Depois que acendeu a fogueira, ouviu
alguém gemendo no alto:
- Ai, ai! Estou com tanto frio! Ele olhou para cima, viu a bruxa na árvore e
disse: - Pois desça e venha se esquentar!
- Não - disse ela. - Seus animais iam me morder. Ele então respondeu: - Não se
preocupe, vovó. Eles são mansos, não vão lhe fazer nada, pode descer. Então ela
disse:
- Vou quebrar uma varinha e jogar aí embaixo. Bata nas costas deles, que assim
não me machucam.
Quando ouviu isso, o caçador desconfiou da velha: - Não vou bater nos meus
animais. Desça logo ou eu subo aí e pego você - disse ele.
- Não me faça rir - respondeu a velha. - Você não pode me fazer nada.
Ele então ameaçou:
- Se você não descer, eu lhe dou um tiro. - Pois pode dar - desafiou ela. - Não
tenho medo nenhum das suas balas.
Ele mirou e atirou, mas a bruxa era à prova de balas. Ficou dando gargalhadas e
gritando:
- Você não vai conseguir me acertar!
Mas o caçador era muito esperto. Arrancou três botões de prata do paletó e
carregou a arma com eles, porque contra a prata não havia poder mágico. No
momento em que ele puxou o gatilho, ela despencou aos berros. Ele pôs o pé em
cima dela e disse:
- Sua bruxa velha, se você não me disser imediatamente onde está o meu irmão,
eu lhe pego com as duas mãos e jogo você no fogo, já, já!
Ela ficou com tanto medo que pediu clemência e disse: - Ele e os animais estão
caídos naquele barranco, viraram pedra. Ele fez a velha levá-lo até o lugar e a
ameaçou:
- Sua macaca velha! Devolve a vida imediatamente a meu irmão e a todas as
criaturas que estão aí, ou então vai para o fogo!
Ela pegou uma varinha e tocou as pedras. O irmão e os animais voltaram à vida.
E muitos outros homens também, mercadores, artesãos, pastores. Todos se
levantaram, agradeceram ao caçador por libertá-los e foram para casa. Os gêmeos
se abraçaram e se beijaram, contentíssimos por se encontrarem novamente.
Agarraram e amarraram a bruxa e a jogaram na fogueira. Quando ela acabou de
queimar, a floresta se abriu sozinha e deu para ver o palácio real à distância,
a mais ou menos quatro ou cinco milhas dali.
Os dois irmãos voltaram juntos e, pelo caminho, foram contando o que tinha
acontecido com cada um. Quando o mais jovem disse que era regente de todo o
país, o outro disse:
- Eu descobri, porque, quando eu cheguei ao palácio e me confundiram com você,
me deram honras reais. A jovem rainha achou que eu era o marido dela, e tive
que sentar ao lado dela na mesa e dormir na sua cama.
Quando o jovem rei ouviu isso, ficou tão zangado e com tanto ciúme que puxou a
espada e cortou fora a cabeça do irmão. Mas quando viu que ele estava caído,
morto, e viu o sangue vermelho escorrendo, ficou transtornado de tristeza.
- Meu irmão me salvou - gritava -, e foi assim que eu agradeci!
Chorou e se lamentou, mas depois sua lebre se aproximou e se ofereceu para ir
buscar um pouco da raiz da vida. Saiu a toda velocidade e chegou de volta em
tempo. Deu para ressuscitar o irmão morto, e ele nem percebeu a cicatriz.
Depois, continuaram andando e o irmão mais moço disse:
- Você se parece comigo, está usando roupas reais, como eu, e os animais seguem
você como me seguem. Vamos entrar por dois portões opostos e aparecer ao mesmo
tempo diante do velho rei, vindo de direções diversas.
Assim, eles se separaram e depois, dois sentinelas, um de cada portão, chegaram
ao mesmo momento junto do velho rei para anunciar que o jovem rei e seus
animais estavam voltando da caçada. O velho rei disse:
- Impossível. Os dois portões ficam longe um do outro, é uma caminhada de uma
hora.
Mas nesse instante os dois irmãos entraram no pátio, vindos de duas direções
opostas, e ambos subiram as escadas ao mesmo tempo. O rei disse à filha:
- Diga-me qual dos dois é seu marido. São tão iguais que não sei.
Ela não conseguia descobrir e estava muito espantada, mas depois se lembrou do
colar que tinha dado aos animais. Olhou bem para eles e descobriu o fecho de
ouro em um dos leões.
- O meu marido é aquele que este leão seguir - disse, toda contente. O jovem
rei riu e disse: - É, está certo.
Sentaram-se juntos à mesa, comeram, beberam e se divertiram. Nessa noite,
quando o jovem rei foi para a cama, a esposa perguntou:
- Por que foi que você botou uma espada de dois fios na cama nestas últimas
noites? Pensei que você ia me matar...
Aí ele ficou sabendo como seu irmão lhe tinha sido
Conto mais longo e complexo, indicado especialmente para anos finais e Ensino Médio, com aventura, traição, coragem, reconhecimento e justiça.
Texto IV: Os dois Irmãos-
Era uma vez dois irmãos, um rico e outro pobre. O rico era
ourives, e malvado até não poder mais. O pobre ganhava a vida fabricando
vassouras, e era bom e honesto. O pobre tinha dois filhos, dois gêmeos
iguaizinhos como duas gotas d'água. De vez em quando, eles iam até à casa do
rico e, às vezes, ganhavam umas sobras de comida.
Um dia, o fabricante de vassouras foi até o bosque apanhar uns gravetos de
bétula e viu um pássaro todo dourado, mais bonito do que qualquer outra ave que
ele jamais tivesse visto. Pegou uma pedra, jogou nele, e atingiu o pássaro, mas
de raspão. Uma pena caiu no chão e o animal voou e foi embora. O homem pegou a
pena e a levou até o irmão, que olhou para ela e disse:
- Mas é ouro puro! E deu muito dinheiro por ela.
No dia seguinte, o fabricante de vassouras subiu numa bétula, para arrancar
alguns galhos. De repente, viu o mesmo pássaro sair voando da árvore. Olhou em
volta e acabou encontrando um ninho com um ovo dentro, um ovo de ouro. Ele
pegou o ovo, levou para casa e o mostrou ao irmão, que mais uma vez disse:
- É ouro puro! E deu a ele tudo o que o ovo valia. Finalmente, o ourives disse:
- Gostaria de ter esse pássaro.
Pela terceira vez, o fabricante de vassouras foi até o bosque. Novamente, viu o
pássaro dourado, desta vez pousado num galho, e jogou uma pedra nele, que caiu.
Levou o pássaro para o irmão, que lhe deu um dinheirão.
Agora vou poder dar um jeito em minha vida - pensou o fabricante de vassouras.
E foi para casa.
Acontece que o ourives era esperto e sabia uma porção de coisas. Sabia que tipo
de pássaro era aquele. Chamou a mulher e disse:
- Quero que você asse este pássaro com todo cuidado e não deixe se perder nem
um pedacinho dele. Quero comer ele todo, sozinho.
Fique sabendo que esse pássaro não era como os outros. Tinha uma coisa
maravilhosa: quem comesse o coração e o fígado dele passaria a achar, todas as
manhãs, uma moeda de ouro debaixo do travesseiro.
A mulher limpou o pássaro e o pôs num espeto para assar. Enquanto ele estava
assando, ela teve que sair da cozinha por causa de algum outro trabalho, e bem
nessa hora os filhos do fabricante de vassouras entraram correndo. Pararam do
lado do fogo, rodaram o espeto algumas vezes e, quando dois pedacinhos pequenos
caíram na panela, um dos dois meninos disse:
- Vamos comer esses pedacinhos? Estou com tanta fome E ninguém vai reparar.
E puseram os dois pedacinhos na boca. Quando a mulher voltou, viu que eles
tinham comido alguma coisa e perguntou: - O que é que vocês andaram comendo?
- Uns pedacinhos que caíram dessa ave - disseram eles.
--Eram o coração e o fígado! - gritou a mulher, aflita.
Como ela não queria que o marido desse falta e ficasse zangado, rapidamente
matou um frango, tirou o coração e o fígado e os pôs dentro do pássaro dourado.
Quando a ave ficou pronta, ela a serviu ao ourives, que comeu tudo sozinho. Mas
na manhã seguinte, quando ele pôs a mão debaixo do travesseiro, esperando
encontrar uma moeda de ouro, não havia nada diferente de todos os outros dias.
Os dois meninos nem desconfiavam de sua boa fortuna. Quando se levantaram no
dia seguinte, alguma coisa caiu no chão, tilitando. Quando olharam, viram que
eram duas moedas de ouro. Mostraram ao pai, que ficou muito espantado:
- Que será isso? - perguntou. Mas, no dia seguinte, quando acharam mais duas, e
mais duas na outra manhã, e assim por diante, ele resolveu ir procurar o irmão
e contar aquele caso estranho.
Imediatamente, o ourives descobriu que as crianças tinham comido o fígado e o
coração do pássaro dourado. Mas ele era um homem invejoso e sem piedade e, para
se vingar, disse ao pai dos meninos:
- Seus filhos fizeram um pacto com o diabo. Não fique com esse ouro, nem deixe
que ele fique guardado em sua casa, porque o diabo já se apossou de seus filhos
e, se você deixar, vai acabar destruindo você também.
O pai tinha muito medo do diabo. Por mais que odiasse fazer uma coisa dessas,
levou os gêmeos para a floresta e lá, com o coração apertado, largou os dois.
As crianças andaram e andaram, procurando o caminho de casa, mas não
conseguiram achar. Quanto mais andavam, mais se perdiam. Finalmente,
encontraram um caçador, que perguntou:
- Quem são vocês? De onde vocês vêm?
- Somos os filhos do pobre fabricante de vassouras - responderam.
E contaram a ele que o pai não podia mais ficar com eles em casa, porque todas
as manhãs apareciam duas moedas de ouro debaixo dos travesseiros deles.
- Não há nada de mal nisso - disse o caçador - desde que vocês continuem sendo
bons e honestos e não comecem a ficar preguiçosos.
O bom homem gostou das crianças. Como não tinha filhos, resolveu tomar conta
dos meninos e disse:
- Eu vou ser pai de vocês e criá-los.
E fez isso mesmo: criou os dois e os ensinou a caçar. Eles continuaram a achar
moedas de ouro todas as manhãs, mas o caçador as guardava com cuidado, para o
caso de algum dia eles precisarem.
Um dia, quando eles já tinham crescido e estavam uns homens feitos, o pai de
criação os levou à floresta e disse:
- Hoje eu vou testar a perícia de vocês como atiradores. Se passarem no teste,
deixarão de ser aprendizes e eu vou declará-los mestres-caçadores.
Foram todos para o esconderijo de caça e ficaram um tempão à espera, de tocaia,
mas não apareceu nenhum animal. Depois, o caçador viu que vinha no céu um bando
de gansos selvagens, voando numa formação em triângulo, e disse a um dos
rapazes:
- Abata um em cada ponta. O rapaz acertou e passou no teste.
Daí a pouco, outro bando veio chegando, desta vez voando na forma do número
dois.
O caçador disse ao outro irmão que acertasse um ganso em cada canto, e ele
também passou no teste. Diante disso, o pai de criação exclamou:
- Muito bem! Vocês agora são mestres-caçadores.
Então os dois irmãos foram juntos para a floresta, pensaram, conversaram muito
e combinaram um plano. De noite, disseram ao pai de criação:
- Resolvemos que não vamos tocar em um único bocado da comida enquanto o senhor
não nos fizer um favor.
- E qual é esse favor? - perguntou ele.
- Já aprendemos bem nosso ofício - replicaram. - Agora devemos nos por à prova,
nós mesmos. Queremos sair para correr mundo.
O velho ficou feliz e respondeu:
- Vocês falam como caçadores de verdade. Era isso mesmo o que eu esperava.
Podem ir. Tenho certeza de que vão se dar muito bem.
E então eles comeram e beberam juntos, muito alegres.
Quando chegou o dia em que tinham resolvido partir, o pai de criação deu a cada
um uma boa arma e um cachorro, e disse que eles levassem consigo todas as
moedas de ouro que quisessem, daquelas que estavam guardadas. Seguiu com eles
por uma parte do caminho e, na despedida, deu aos dois uma faca com a lâmina
muito brilhante.
- Se algum dia vocês se separarem - recomendou -, enfiem esta faca numa árvore
na encruzilhada. Dessa maneira, se um de vocês voltar, vai poder saber como
está passando o irmão ausente, porque o lado da lâmina que estiver na direção
em que ele foi vai enferrujar se ele morrer. Mas, enquanto ele estiver vivo,
continuará brilhante.
Os dois irmãos continuaram, indo cada vez mais para longe, e chegaram a uma
floresta tão grande que não foi possível atravessá-la em um único dia. Pararam
para passar a noite e comeram o que tinham em suas sacolas de caça. Depois,
caminharam o outro dia inteiro, mas ainda não conseguiram chegar ao fim da
floresta. Não tinham mais nada para comer e um dos irmãos disse:
- Vamos ter que abater alguma caça ou ficar com fome.
Carregou a arma e olhou em volta. Quando uma velha lebre apareceu, ele fez
pontaria, mas a lebre gritou:
- Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Saiu correndo para dentro de uma moita e voltou com dois filhotes de lebre. As
lebrinhas brincavam tão alegres e eram tão engraçadinhas que os caçadores não
tiveram coragem de matá-las. Então, resolveram poupá-las e elas começaram a
segui-los.
Daí a pouco, apareceu uma raposa. Eles iam atirar, mas a raposa gritou: - Bom
caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
É claro que, em seguida, trouxe duas raposinhas. De novo, os caçadores não
tiveram coragem de matá-las e disseram que elas podiam fazer companhia às
lebres.
Não tinha se passado muito tempo e um lobo saiu do mato. Os caçadores apontaram
a arma, mas o lobo gritou:
- Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Os caçadores puseram os dois filhotes de lobo com os outros bichos e todos
foram andando atrás deles.
Depois apareceu um urso, que queria continuar a viver e gritou: - Bom caçador,
deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Os dois ursinhos foram levados para junto dos outros animais, e agora já eram
oito. E quem veio no fim de todos? Apareceu um leão, sacudindo a juba. Mas não
assustou os caçadores. Eles fizeram pontaria e, bem como os outros tinham feito,
o leão disse:
- Bom caçador, deixe eu viver, dou dois pequenos para você.
Também trouxe os dois filhotes dele e agora os caçadores tinham dois leões,
dois ursos, dois lobos, duas raposas e duas lebres que iam atrás deles e os
serviam. Só que isso não matava a fome. Então eles disseram às raposas:
- Todo mundo sabe que vocês são espertas e sabidas. Pois então, tratem de nos
arranjar comida.
Elas responderam:
- Perto daqui tem uma aldeia onde já nos servimos de galinhas, uma ou duas
vezes. Vamos mostrar o caminho a vocês.
Assim, eles foram até a aldeia, compraram alguma coisa para comer, deram comida
também aos animais e continuaram a viagem. As raposas conheciam bem a região,
porque já tinham andado vigiando todos os galinheiros por ali. Por isso, sempre
sabiam mostrar o caminho aos caçadores.
Andaram a esmo durante algum tempo, mas os caçadores não conseguiram encontrar
nenhum emprego que permitisse que todos ficassem juntos. No fim, disseram:
- Não tem jeito. Vamos ter que nos separar.
Dividiram os animais, de modo que cada um ficou com um leão, um urso, um lobo,
uma raposa e uma lebre. Depois, se despediram, prometeram se amar como bons
irmãos até a morte, e enfiaram numa árvore a faca que o pai de criação tinha
dado a eles. Depois, um foi para leste, outro foi para oeste.
Seguido por seus animais, um dos irmãos chegou a uma cidade que estava cheia de
faixas de crepe preto dependuradas por toda parte. Foi até uma estalagem e
perguntou onde podia deixar os animais. O estalajadeiro os botou num celeiro
que tinha um buraco na parede. A lebre se esgueirou pelo buraco e acabou
conseguindo um repolho. A raposa pegou uma galinha e, depois de comer, acabou
pegando também um galo. O lobo, o urso e o leão eram grandes demais para passar
pelo buraco, por isso o estalajadeiro teve que leválos até um lugar onde havia
uma vaca deitada no pasto, e eles comeram até se fartar. Finalmente, quando
todos os animais já estavam alimentados e abrigados, o caçador perguntou ao
estalajadeiro porque toda a cidade estava de luto. O estalajadeiro respondeu:
- Porque a filha única do nosso rei vai ter que morrer amanhã.
- Ela está tão doente assim? - perguntou o caçador.
- Não - disse o estalajadeiro. - Ela tem ótima saúde, mas, de qualquer jeito,
vai morrer.
- Como pode ser uma coisa dessas? - quis saber o caçador.
- Não muito longe da cidade, existe uma montanha. Nessa montanha vive um dragão
e todos os anos ele precisa ter uma donzela imaculada. Se não, ele devasta todo
o país. Todas as donzelas já foram dadas ao dragão, agora só resta a filha do
rei. Por isso, filha do rei ou não, ela não pode ser poupada. Amanhã, ela vai
ser entregue ao dragão.
- Mas por que ninguém mata esse dragão? - perguntou o caçador.
- É uma história muito triste - disse o estalajadeiro. - Muitos cavaleiros já
tentaram, mas todos perderam a vida. O rei prometeu a mão de sua filha em
casamento para quem matar o dragão e, além disso, o reino todo de herança
quando o velho rei morrer.
O caçador não disse mais nada. Porém, no dia seguinte, saiu com os animais e
escalou a montanha do dragão. Lá no alto, havia uma igreja e no altar havia
três taças, cheias até a borda, e ao lado havia uma inscrição que dizia:
"Quem esvaziar estas taças será o homem mais forte da terra e poderá
brandir a espada que está enterrada do lado de fora da porta."
O caçador não bebeu. Saiu e achou a espada enterrada, mas não conseguiu
arredá-la do lugar. Voltou e esvaziou as taças. Aí ficou bem forte, conseguiu
tirar a espada do chão e manejá-la à vontade.
Quando chegou a hora de entregar a donzela ao dragão, vieram com ela o rei, o
marechal e toda a corte. De longe, ela avistou o caçador na montanha do dragão
e achou que era o dragão esperando por ela. Não queria subir, mas isso ia ser a
desgraça de toda a cidade. Finalmente, ela acabou se conformando e começando
sua amarga subida. Chorando, o rei e os cortesãos voltaram para casa, mas o
marechal ficou, pois tinha instruções de acompanhar tudo à distância.
No momento em que a filha do rei alcançou o alto da montanha, viu que quem
estava lá esperando por ela não era o dragão, mas o jovem caçador, que a
consolou e prometeu salvá-la.
Para começar, ele a levou para a igreja e a trancou lá dentro. Daí a pouco, o
dragão de sete cabeças arremeteu com um poderoso rugido. Quando viu o caçador,
ficou surpreso e perguntou:
- O que é que você está fazendo na minha colina? O caçador respondeu: - Vim
para combater você. O dragão disse:
- Alguns cavaleiros já morreram aqui em cima, e num instante eu vou dar cabo de
você também.
Dizendo isso, cuspiu chamas pelas suas setes goelas. A idéia dele era incendiar
o capim seco por ali, de modo que o caçador morresse sufocado no calor e na
fumaça, mas os animais vieram correndo e pisotearam o fogo até apagar.
Em seguida, o dragão atacou, mas o caçador brandiu a espada com tanta agilidade
e rapidez que ela cantou no ar e cortou três cabeças do monstro.
Aí o dragão ficou zangado de verdade. Levantou-se no ar, lançando chamas
ferozes, e se abateu sobre o caçador bem no instante em que ele brandiu outra
vez a espada e cortou mais três cabeças. O dragão caiu no chão. Mas, apesar de
toda a fraqueza que sentia, atacou de novo. Reunindo suas últimas forças, o
caçador conseguiu cortar fora a cauda do monstro, mas depois disso não podia
lutar mais. Então, chamou os animais, que fizeram o dragão em pedaços.
Depois que a batalha terminou, o caçador abriu a porta da igreja. A filha do
rei jazia no chão, porque tinha desmaiado de medo durante a luta. Ele a levou
para fora e, quando ela voltou a si e abriu os olhos, ele mostrou a ela os
pedaços do dragão e lhe disse que estava salva. Ela ficou muito feliz e disse:
- Então você vai ser meu marido muito querido, porque meu pai prometeu minha
mão ao homem que matasse o dragão.
Para recompensar os animais, ela tirou do pescoço o colar de coral e o dividiu
entre eles. O leão ficou com o fecho de ouro. Ao caçador, ela deu um lenço, com
o nome dela bordado. O caçador cortou as sete línguas do dragão, enrolou-as no
lenço e as guardou com cuidado.
Depois disso, como ele estava exausto do incêndio e da luta, disse à filha do
rei: - Nós dois estamos caindo de cansaço. Vamos dormir um pouco. Ela
concordou, eles se deitaram no chão e o caçador disse ao leão: - Fique de
guarda. Não deixe ninguém nos atacar enquanto estivermos dormindo.
E os dois adormeceram. O leão deitou ao lado deles para montar guarda, mas,
como também estava muito cansado da luta, chamou o urso e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
O urso deitou ao lado dele, mas também estava muito cansado. Por isso, chamou o
lobo e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
O lobo deitou ao lado dele, mas também estava muito cansado. Por isso, chamou a
raposa e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
A raposa deitou ao lado dele, mas também estava muito cansada. Por isso, chamou
a lebre e disse:
- Deite ao meu lado. Preciso dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, me
acorde.
A lebre se sentou ao lado dela, mas, coitadinha, também estava muito cansada e
não tinha ninguém para quem pudesse passar adiante a guarda. Mas, mesmo assim,
acabou dormindo também. E foi assim que, em pouco tempo, o caçador, a filha do
rei, o leão, o urso, o lobo, a raposa e a lebre, todos estavam dormindo a sono
solto.
Quando o marechal, que fora instruído para acompanhar tudo à distância, não viu
o dragão sair voando com a filha do rei e achou que tudo estava tranqüilo na
montanha, tomou coragem e foi até lá. Então viu o dragão estraçalhado e, ali
por perto, a filha do rei e um caçador com todos os seus animais, todos
dormindo profundamente. Como ele era um homem mau e ímpio, tirou a espada,
cortou fora a cabeça do caçador, pegou a filha do rei no colo e desceu a
montanha com ela. Quando chegaram lá embaixo, ela acordou sobressaltada e o
marechal disse:
- Você está em meu poder. Tem que dizer que fui eu quem matou o dragão.
- Não posso dizer uma coisa dessas - respondeu ela. - Foi um caçador com seus
animais.
Ouvindo isso, ele puxou a espada e ameaçou matá-la se ela não prometesse
confirmar a história dele. Depois, a levou até o rei, que achava que o dragão
tinha despedaçado sua filha adorada e não coube em si de alegria ao vê-la viva.
O marechal disse:
- Matei o dragão, salvei sua filha e todo o reino. Agora ela tem que casar
comigo, como o senhor prometeu.
O rei perguntou à filha: - É verdade?
- É - disse ela deve ser... Mas o casamento não pode ser celebrado antes de um
ano e um dia.
Sabe, ela achava que durante esse tempo devia ter alguma notícia de seu amado
caçador.
Na montanha do dragão, os animais ainda estavam dormindo ao lado do corpo do
seu dono morto. Aí veio uma abelha e pousou no focinho da lebre, mas a lebre a
espantou com a pata e continuou dormindo. Ela veio outra vez, e mais uma vez a
lebre a espantou e continuou a dormir. Mas quando a abelha veio pela terceira
vez e picou o focinho da lebre, ela acordou. E no instante que a lebre acordou,
acordou a raposa, e a raposa acordou o lobo, e o lobo acordou o urso, e o urso
acordou o leão. E quando o leão acordou e viu que a filha do rei tinha sumido e
seu dono estava morto, deu um rugido que parecia um trovão e perguntou:
- Quem fez isto? Urso, por que você não me acordou? O urso perguntou ao lobo: -
Por que você não me acordou? O lobo perguntou à raposa: - Por que você não me
acordou? A raposa perguntou à lebre: - Por que você não me acordou?
E como a coitadinha da lebre não podia jogar a culpa em cima de ninguém, ficou
sendo a única culpada. Iam todos avançar em cima dela, mas ela pediu:
- Não me matem. Eu posso devolver a vida ao nosso dono. Sei de uma montanha
onde cresce uma raiz e, se a gente puser essa raiz na boca de um ferido, ele
fica inteiramente curado de qualquer doença ou ferimento. Mas essa montanha
fica a duzentas horas daqui.
O leão disse: - Você tem vinte e quatro horas para ir e voltar com essa tal
raiz.
A lebre saiu à toda, feito uma flecha, e em vinte e quatro horas estava de
volta com a raiz. O leão pôs a cabeça do caçador no lugar, a lebre pôs a raiz
na boca do morto e no mesmo instante as partes se costuraram e ficaram juntas
outra vez, o coração começou a bater e a vida voltou.
Quando o caçador acordou, ficou tristíssimo de ver que a donzela tinha ido
embora.
- Na certa ela quis se livrar de mim - disse ele. - Aproveitou que eu estava
dormindo e foi embora.
O leão tinha estado com tanta pressa na hora de consertar o dono, que pôs a
cabeça dele ao contrário, de trás para frente. Mas o caçador estava tão ocupado
com seus pensamentos tristes sobre a filha do rei, que nem reparou. Lá pelo
meio-dia, quando ele foi comer, notou que a cabeça estava de frente para a
direção errada. Ficou muito intrigado com isso e perguntou aos animais o que é
que tinha acontecido enquanto ele estava dormindo. Então o leão contou a ele
que todos estavam tão cansados que acabaram dormindo e que, quando acordaram,
descobriram que ele estava morto, com a cabeça cortada, e que a lebre tinha ido
buscar a raiz da vida e que ele, leão, tinha colado a cabeça na posição errada
porque estava com pressa demais, mas agora ia corrigir o erro. Assim, ele
arrancou a cabeça do caçador outra vez, virou-a direito, e a lebre colou e
tratou da ferida com a raiz.
A partir desse dia, o caçador, sempre muito triste, passou a andar de um lado
para o outro com seus animais, fazendo-os dançar para as pessoas. Quando tinha
passado exatamente um ano, ele chegou à mesma cidade onde tinha salvo do dragão
a filha do rei. Desta vez, o lugar estava todo enfeitado com faixas vermelhas.
- Que quer dizer isso? - perguntou ao estalajadeiro. Há um ano, a cidade estava
toda pendurada com faixas de luto. Agora, está toda de vermelho. Por quê?
O estalajadeiro replicou:
- Há um ano, a filha de nosso rei ia ser entregue ao dragão, mas nosso marechal
lutou com o dragão e o matou, e amanhã eles se casam. Por isso é que a cidade
estava de preto, de luto, e agora está de vermelho, de alegria.
Ao meio-dia do dia do casamento, o caçador disse ao estalajadeiro:
- O senhor acredita que eu vou comer pão da mesa do rei, bem aqui na sua casa,
antes que o dia termine?
O estalajadeiro respondeu: - Aposto cem moedas de ouro como não vai.
O caçador topou a aposta e pôs em cima da mesa uma bolsa que tinha exatamente
as cem moedas de ouro. Depois, chamou a lebre e disse:
- Minha querida Pé-Leve, traga-me um pouco do pão que o rei come.
A lebre era o menor dos animais, não podia passar a ordem adiante para nenhum
outro, e disse para si mesma:
- Se eu for correndo pelas ruas sozinha, todos os cachorros carniceiros vão
sair me perseguindo.
E foi isso mesmo: os cachorros foram correndo atrás dela, com evidentes
intenções de encher sua pele de buracos. Mas ela deu um pulo assim - você não
viu? - e se meteu dentro da guarita do sentinela. O soldado nem viu que ela
estava lá.
Os cachorros chegaram e tentaram tirá-la dali, mas o soldado não gostou nada
daquilo e saiu atrás deles batendo com a coronha da espingarda até que eles
fugiram uivando e latindo. Quando a lebre viu que o caminho estava livre,
correu para dentro do palácio, foi direto aonde estava a filha do rei, sentou
debaixo da cadeira e começou a coçar o pé dela.
A moça achou que era seu cachorro e disse: - Passa fora! A lebre coçou o pé
dela mais uma vez e de novo ela disse: - Passa fora!
Mas a lebre não desanimou. Quando coçou o pé da filha do rei pela terceira vez,
a moça olhou para baixo e a reconheceu pelo coral no pescoço. Pegou o bichinho
no colo, levou-o até seu quarto e disse:
- Minha lebre querida, que é que eu posso fazer por você? Ela respondeu:
Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pão, dos
que o rei come.
Quando ouviu isso, a moça ficou contentíssima. Chamou o padeiro e mandou que
ele lhe trouxesse um pão, dos que o rei comia.
- Mas - disse a lebre - o padeiro precisa também entregar o pão, em meu lugar.
Se não, os cachorros carniceiros acabam comigo.
O padeiro levou o pão até a porta da estalagem.
Lá chegando, a lebre ficou de pé em suas patas traseiras, pegou o pão nas patas
da frente e o levou ao seu dono. Então o caçador disse ao estalajadeiro:
- Como vê, as cem moedas de ouro são minhas. O estalajadeiro ficou muito
espantado, mas o caçador continuou: - Sim, senhor! Tenho pão, mas agora quero
um pouco da carne que o rei come. O estalajadeiro disse: - Eis uma coisa que eu
queria ver... Mas dessa vez não propôs nenhuma aposta. O caçador chamou a
raposa e disse: - Raposinha, traga-me um pouco da carne assada que o rei come.
A raposa sabia todos os truques, esgueirou-se ao longo de muros, passou por
buracos de cercas, os cachorros nem a viram. Quando chegou ao palácio,
sentou-se embaixo da cadeira da filha do rei e coçou o pé dela. A moça olhou,
reconheceu a raposa por causa do coral no pescoço, e disse:
- Minha raposa querida, que é que eu posso fazer por você? Ela respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
da carne assada que o rei come.
Então a moça mandou chamar o cozinheiro e disse que ele preparasse um assado
como o rei comia e o levasse até a porta da estalagem. Depois, a raposa pegou a
bandeja, abanou bem a cauda para espantar as moscas que vinham atrás do assado,
e o levou até seu dono.
Aí, o caçador disse ao estalajadeiro:
- Como vê, senhor, tenho o pão e tenho a carne, mas agora quero a guarnição do
prato, bem como o rei come.
Chamou o lobo e disse:
- Caro lobo, traga-me um pouco da guarnição que acompanha esse assado que o rei
come.
O lobo foi direto ao palácio, porque não tinha medo de ninguém. Quando chegou
junto da filha do rei, deu um puxão no vestido dela, pelas costas. Ela teve que
se virar e olhar para ele, e logo o reconheceu, por causa do coral no pescoço.
Levou-o até seu quarto e perguntou:
- Meu lobo querido, que é que eu posso fazer por você? O lobo respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
da guarnição que acompanha o assado, bem como o rei come.
Então a moça mandou chamar o cozinheiro, que teve que preparar a guarnição, bem
como o rei comia, e levar até a porta da estalagem, onde o lobo tirou a
travessa da mão dele e a levou a seu dono.
Aí, o caçador disse ao estalajadeiro:
- Como vê, agora eu tenho pão, carne e acompanhamento, mas também quero uma
sobremesa, das que o rei come.
Chamou o urso e disse: - Caro urso, você gosta de doces. Traga-me um pouco da
sobremesa que o rei come.
O urso saiu trotando para o palácio e todo mundo saía da frente dele. Mas
quando chegou ao portão, os sentinelas o ameaçaram com seus mosquetes e não
queriam deixar que ele passasse. Ele ficou de pé nas patas traseiras e bateu
nas orelhas deles com as patas, para a direita e para a esquerda, e todos os
sentinelas caíram. Então ele foi direto para onde estava a filha do rei, ficou
bem atrás dela e deu uma rosnadinha suave. Ela olhou para trás, reconheceu o
urso, pediu-lhe que a seguisse até seu quarto e disse:
- Meu urso querido, que é que eu posso fazer por você? Ele respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
da sobremesa que o rei come.
Ela mandou chamar o confeiteiro e ordenou que ele preparasse uns doces como o
rei comia de sobremesa e levasse até a porta. Primeiro, o urso lambeu umas
ameixas açucaradas que enfeitavam os doces e tinham rolado de cima deles,
depois se levantou nas patas de trás, pegou a travessa e a levou até o dono.
O caçador então disse ao estalajadeiro:
- Como vê, agora tenho pão, carne, acompanhamentos e sobremesa, mas ainda quero
um pouco de vinho que o rei toma.
Chamou o leão e disse:
- Caro leão, você gosta de beber de vez em quando. Traga-me então um pouco de
vinho, do que o rei toma.
O leão saiu passando pela rua e as pessoas correram para tudo quanto era lado.
Quando chegou ao palácio, os guardas tentaram lhe barrar a entrada, mas ele deu
um rugido e eles saíram correndo. Aí ele foi até os aposentos reais e bateu na
porta com o rabo. A filha do rei abriu e levou um susto quando viu o leão, mas
logo o reconheceu pelo fecho de ouro de seu colar de coral. Pediu que ele fosse
com ela até o quarto e perguntou:
- Meu leão querido, que é que eu posso fazer por você? Ele respondeu:
- Meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco
do vinho que o rei toma.
Então ela mandou chamar o encarregado da adega e lhe ordenou que desse ao leão
um pouco do vinho que o rei tomava. Mas o leão disse:
- É melhor eu ir junto, para ter a certeza de que ele está pegando o vinho
certo.
Foi com o encarregado até a adega e, quando chegaram lá, o funcionário queria
pegar um pouco de vinho comum, do que os criados tomavam, mas o leão disse:
- Espere aí! Vou provar esse vinho. O encarregado deu meio litro ao leão e ele
bebeu tudo de um gole. Depois disse: - Não. Este não é o vinho certo.
O encarregado da adega olhou para ele espantado e foi então até outro barril,
que tinha o vinho reservado para o marechal do rei. O leão disse:
- Primeiro, vou provar esse vinho. Tirou meio litro, bebeu e disse: - Este é
melhor, mas ainda não é o vinho certo. Isso deixou o encarregado da adega
furioso. Tão furioso que disse:
- Como é que um animal estúpido desses pode querer entender alguma coisa de
vinho!
O leão deu uma patada tão forte atrás da orelha dele, que ele caiu sentado no
chão, fazendo um barulhão. Quando se levantou, não disse nada, mas levou o leão
até uma pequena adega separada, onde se guardava o vinho especial do rei, que
ninguém jamais tocava. O leão tirou meio litro e provou. Depois, disse:
- Ah, este sim pode ser o vinho certo.
Então, disse ao encarregado da adega que enchesse meia dúzia de garrafas, e
depois subiram novamente as escadas. Quando chegaram lá fora, o leão estava
ligeiramente alegre, e balançava de um lado para outro. O encarregado da adega
teve que carregar o vinho até a porta, onde o leão segurou a alça da cesta nos
dentes e levou o vinho até seu dono.
O caçador disse então ao estalajadeiro:
- Como vê, agora tenho pão, carne, acompanhamentos, sobremesa e vinho, como o
rei, e agora vou jantar com meus animais.
Sentou-se, comeu e bebeu, dividindo a comida e a bebida com a lebre, a raposa,
o lobo, o urso e o leão. Estava feliz, porque via que a filha do rei ainda o
amava. Quando acabou a refeição, disse para o estalajadeiro:
- Como vê, senhor, comi e bebi como o rei come e bebe. Agora, vou até o palácio
do rei casar com a filha dele.
O estalajadeiro se espantou: - Como é que pode? Ela está noiva, vai se casar
hoje mesmo.
O caçador tirou do bolso o lenço que a filha do rei tinha dado a ele lá na
montanha do dragão, e as sete línguas do monstro ainda estavam embrulhadas
nele.
- Vou conseguir isso - disse ele - com a ajuda do que tenho aqui na mão. O
estalajadeiro olhou para o lenço e duvidou:
- Estou disposto a acreditar em qualquer coisa, menos nisso. Aposto a minha
estalagem.
O caçador tirou da cintura uma bolsinha com mil moedas de ouro, colocou-a sobre
a mesa e disse:
- Aposto isto aqui contra a sua estalagem. Enquanto isso, o rei e sua filha
estavam sentados à mesa real.
- O que é que todos aqueles animais que ficaram entrando e saindo do palácio
queriam com você? - perguntou ele.
Ela respondeu:
- Estou proibida de dizer, mas o senhor faria muito bem se mandasse buscar o
dono desses animais.
O rei mandou um criado ir até a estalagem convidar o estranho para vir até o
palácio. O criado chegou assim que o caçador tinha acabado de fazer sua aposta
com o estalajadeiro.
O caçador disse ao estalajadeiro: - Como vê, o rei mandou seu criado me buscar,
mas eu não vou assim. E respondeu ao criado:
- Por gentileza, peça ao rei que me mande trajes reais e uma carruagem com seis
cavalos e criados que me sirvam.
Quando o rei ouviu a resposta, perguntou à filha: - Que é que eu faço agora?
- O senhor faria bem se mandasse buscá-lo, como ele diz respondeu.
Então o rei mandou os trajes reais, a carruagem com seis cavalos e criados para
servilo. Quando o caçador os viu chegar, disse ao estalajadeiro:
- Como vê, mandaram me buscar, como eu pedi.
Vestiu os trajes reais, apanhou o lenço com as línguas do dragão e foi para o
palácio. Quando o rei o viu chegar, perguntou à filha:
- Como devo recebê-lo?
- O senhor faria bem se andasse ao seu encontro - respondeu ela.
O rei se adiantou, foi ao encontro do caçador e o convidou a entrar. Os animais
foram atrás. O rei mandou que ele se sentasse a seu lado, perto de sua filha.
Do outro lado estava sentado o marechal, porque era o noivo, mas não reconheceu
o caçador. Então trouxeram as sete cabeças do dragão para mostrar a todos, e o
rei disse:
- O marechal cortou estas sete cabeças do dragão. Portanto, estou dando a ele a
mão de minha filha em casamento.
Ouvindo isso, o caçador se levantou, abriu as sete bocas e perguntou: - O que
aconteceu com as sete línguas do dragão?
O marechal ficou pálido de susto e não conseguia pensar em nenhuma resposta
para dar. Finalmente, aterrorizado, acabou dizendo:
- Dragões não têm línguas. O caçador disse:
- Seria muito melhor se quem não tivesse língua fossem os mentirosos. As
línguas de um dragão são a presa do matador do dragão.
Abriu o lenço e lá estavam, as sete. Aí ele pôs cada uma das línguas na boca em
que ela se encaixava, e todas se ajustaram perfeitamente. Depois, ele pegou o
lenço que tinha o nome da filha do rei bordado, mostrou a ela e lhe perguntou a
quem ela o tinha dado.
Ela respondeu: - Ao homem que matou o dragão.
Em seguida, ele chamou os animais, pegou os cordões de coral e o fecho de ouro
do leão, mostrou tudo à filha do rei e lhe perguntou a quem pertenciam. Ela
respondeu:
- O colar e o fecho de ouro eram meus. Eu os dividi entre os animais que
ajudaram a matar o dragão.
- Quando eu estava exausto e me deitei para descansar depois do combate, o
marechal veio e cortou minha cabeça enquanto eu dormia. Depois, carregou a
filha do rei e disse que quem tinha matado o dragão era ele: Isso é mentira,
como eu já provei, com as línguas, o lenço e o colar.
Em seguida, contou sua história. Contou como os animais o tinham salvo com uma
raiz milagrosa, como ele tinha andado a esmo durante um ano até voltar à mesma
cidade e como, então, tinha ficado sabendo pelo estalajadeiro que o marechal
estava enganando todo mundo. O rei então perguntou à filha:
- É verdade que quem matou o dragão foi este jovem?
- É, sim - respondeu ela. - Agora posso falar sobre o crime do marechal, pois
todos ficaram sabendo sem que eu dissesse nada. Ele me tinha feito prometer
guardar segredo. Por isso é que eu insisti para que o casamento não se
celebrasse antes de um ano e um dia.
O rei mandou reunir seus doze conselheiros e lhes pediu que julgassem o
marechal. A sentença o condenou a ser esquartejado por quatro bois. Dessa
forma, o marechal foi executado e o rei deu a mão da filha ao caçador, que
também foi nomeado regente de todo o reino. O casamento foi celebrado com
muitos festejos e o jovem rei mandou chamar o pai verdadeiro e o pai adotivo e
os cobriu de presentes. Também não se esqueceu do estalajadeiro, mas mandou
buscá-lo e disse:
- Como vê, senhor, casei-me com a filha do rei. Agora, sua estalagem é minha.
- De direito, é mesmo - concordou o estalajadeiro.
Mas o jovem rei disse:
- A misericórdia é mais importante que o direito. Pode ficar com sua estalagem.
E também vou lhe dar as mil moedas de ouro, de presente.
Aí tudo ficou bem com o jovem rei e a jovem rainha, que viveram felizes juntos.
Ele ia sempre caçar, porque gostava muito, e seus fiéis animais sempre iam com
ele.
Ora, acontece que havia uma floresta, não muito distante do palácio, que tinha
fama de ser encantada. O que se contava é que quem entrava lá custava muito a
sair. Mas o jovem rei queria muito ir caçar lá, e não deixou o velho rei em paz
enquanto não obteve a permissão para ir. E então, partiu, com um grande
séquito.
Quando chegou à floresta, viu uma corça branca e disse a seus homens: - Fiquem
aqui até que eu volte. Vou caçar aquela bela corça.
Entrou na floresta e apenas seus animais o seguiram. Os homens esperaram até
cair a noite. Como ele não voltava, eles foram para casa e disseram à jovem
rainha:
- O jovem rei foi perseguir uma corça branca na floresta encantada e não voltou
mais.
Quando ela ouviu isso, ficou muito preocupada. Enquanto isso, ele perseguia a
corça branca, mas não conseguia alcançá-la. Ela parecia estar ao alcance de um
tiro às vezes, mas quando ele fazia pontaria e ia atirar, de repente a via
dando saltos mais adiante, cada vez mais distante, até que acabou por desaparecer
por completo.
Vendo que estava na floresta profunda, muito longe, ele pegou sua trompa de
caça e tocou. Mas não houve resposta, pois seus homens não o ouviram. Quando
caiu a noite, ele compreendeu que não ia poder voltar naquele dia. Então, apeou
do cavalo, acendeu uma fogueira debaixo de uma árvore e se preparou para passar
a noite.
Quando estava sentado com os animais à beira do fogo, achou que ouviu de
repente uma voz humana. Procurou, mas não conseguiu ver nada. Depois, ouviu um
gemido que parecia vir do alto. Olhou e viu uma velha sentada na árvore:
- Ai, ai! - chorava ela. - Estou com tanto frio!
- Pois desça e venha se esquentar - chamou ele.
- Não - disse ela. - Seus animais iam me morder.
- Não se preocupe, vovó - disse ele. - Eles são mansos, não vão lhe fazer nada,
pode descer.
Mas a velha era uma bruxa e disse:
- Vou quebrar uma varinha e jogar aí embaixo. Bata nas costas deles, que assim
não me machucam.
Ela jogou a varinha e ele bateu nos animais que, num instante, ficaram imóveis,
transformados em pedra. Sem os animais para atrapalhar, ela num instante pulou
lá de cima e tocou também o caçador com a varinha. No mesmo momento, ele virou
pedra. Aí, dando uma gargalhada horrível, ela o arrastou, e aos animais, para
um barranco onde já havia uma porção daquelas pedras.
Quando o jovem rei não voltou, a preocupação e o medo da jovem rainha foram
ficando cada vez maiores. Ora, acontece que, nessa mesma ocasião, o outro
irmão, que tinha ido para o leste quando se separaram, estava chegando a esse
reino. Depois de procurar emprego sem encontrar, resolveu ir de vila em vila
com os animais, que dançavam para distrair as pessoas. Depois de algum tempo,
ele se lembrou da faca que eles tinham enfiado no tronco da árvore quando se
separaram, e resolveu ir até lá para saber como estava o irmão. Quando chegou
lá, viu que o lado da lâmina que correspondia ao irmão estava metade
enferrujado e metade brilhante.
Isso é mau - pensou -, algo deve ter acontecido a meu irmão, mas talvez eu
ainda possa salvá-lo, porque metade da lâmina está brilhante.
Saiu caminhando para oeste com os animais e, quando chegou aos portões da
cidade, um sentinela veio lhe perguntar se queria que mandasse anunciar sua
chegada para a jovem rainha, sua esposa, porque ela estava muito preocupada,
com medo de que ele tivesse morrido na floresta encantada. É que o jovem rei e
o irmão eram tão parecidos que o sentinela os confundiu, ainda mais porque o
irmão também tinha aquele bando de animais selvagens que o seguiam. Ele
entendeu o erro do sentinela e pensou: é melhor eu fazer de conta que sou ele,
assim fica mais fácil salvá-lo.
Por isso, deixou que o sentinela o levasse ao palácio, onde foi recebido com
muita alegria. Sua jovem esposa também achou que era o marido dela e perguntou
porque ele tinha demorado tanto.
- Eu me perdi na floresta e não consegui achar o caminho - respondeu ele.
De noite, ele foi levado ao leito real, mas colocou uma espada de dois gumes
entre ele e a jovem rainha. Ela não sabia porque, mas ficou com medo de
perguntar.
E assim se passaram alguns dias, em que ele tentou descobrir tudo o que podia
sobre a floresta encantada. Depois disse:
- Vou lá caçar novamente.
O rei e a jovem rainha tentaram dissuadi-lo, mas ele insistiu e partiu com um
grande séquito. Quando chegou à floresta, aconteceu com ele a mesma coisa que
tinha acontecido ao irmão. Viu uma corça branca e disse a seus homens:
- Fiquem aqui até eu voltar. Vou caçar essa bela corça branca. Cavalgou para
dentro da floresta, seguido pelos animais.
Mas não conseguiu alcançar a corça e acabou se embrenhando tão profundamente na
mata que teve que passar a noite lá. Depois que acendeu a fogueira, ouviu
alguém gemendo no alto:
- Ai, ai! Estou com tanto frio! Ele olhou para cima, viu a bruxa na árvore e
disse: - Pois desça e venha se esquentar!
- Não - disse ela. - Seus animais iam me morder. Ele então respondeu: - Não se
preocupe, vovó. Eles são mansos, não vão lhe fazer nada, pode descer. Então ela
disse:
- Vou quebrar uma varinha e jogar aí embaixo. Bata nas costas deles, que assim
não me machucam.
Quando ouviu isso, o caçador desconfiou da velha: - Não vou bater nos meus
animais. Desça logo ou eu subo aí e pego você - disse ele.
- Não me faça rir - respondeu a velha. - Você não pode me fazer nada.
Ele então ameaçou:
- Se você não descer, eu lhe dou um tiro. - Pois pode dar - desafiou ela. - Não
tenho medo nenhum das suas balas.
Ele mirou e atirou, mas a bruxa era à prova de balas. Ficou dando gargalhadas e
gritando:
- Você não vai conseguir me acertar!
Mas o caçador era muito esperto. Arrancou três botões de prata do paletó e
carregou a arma com eles, porque contra a prata não havia poder mágico. No
momento em que ele puxou o gatilho, ela despencou aos berros. Ele pôs o pé em
cima dela e disse:
- Sua bruxa velha, se você não me disser imediatamente onde está o meu irmão,
eu lhe pego com as duas mãos e jogo você no fogo, já, já!
Ela ficou com tanto medo que pediu clemência e disse: - Ele e os animais estão
caídos naquele barranco, viraram pedra. Ele fez a velha levá-lo até o lugar e a
ameaçou:
- Sua macaca velha! Devolve a vida imediatamente a meu irmão e a todas as
criaturas que estão aí, ou então vai para o fogo!
Ela pegou uma varinha e tocou as pedras. O irmão e os animais voltaram à vida.
E muitos outros homens também, mercadores, artesãos, pastores. Todos se
levantaram, agradeceram ao caçador por libertá-los e foram para casa. Os gêmeos
se abraçaram e se beijaram, contentíssimos por se encontrarem novamente.
Agarraram e amarraram a bruxa e a jogaram na fogueira. Quando ela acabou de
queimar, a floresta se abriu sozinha e deu para ver o palácio real à distância,
a mais ou menos quatro ou cinco milhas dali.
Os dois irmãos voltaram juntos e, pelo caminho, foram contando o que tinha
acontecido com cada um. Quando o mais jovem disse que era regente de todo o
país, o outro disse:
- Eu descobri, porque, quando eu cheguei ao palácio e me confundiram com você,
me deram honras reais. A jovem rainha achou que eu era o marido dela, e tive
que sentar ao lado dela na mesa e dormir na sua cama.
Quando o jovem rei ouviu isso, ficou tão zangado e com tanto ciúme que puxou a
espada e cortou fora a cabeça do irmão. Mas quando viu que ele estava caído,
morto, e viu o sangue vermelho escorrendo, ficou transtornado de tristeza.
- Meu irmão me salvou - gritava -, e foi assim que eu agradeci!
Chorou e se lamentou, mas depois sua lebre se aproximou e se ofereceu para ir
buscar um pouco da raiz da vida. Saiu a toda velocidade e chegou de volta em
tempo. Deu para ressuscitar o irmão morto, e ele nem percebeu a cicatriz.
Depois, continuaram andando e o irmão mais moço disse:
- Você se parece comigo, está usando roupas reais, como eu, e os animais seguem
você como me seguem. Vamos entrar por dois portões opostos e aparecer ao mesmo
tempo diante do velho rei, vindo de direções diversas.
Assim, eles se separaram e depois, dois sentinelas, um de cada portão, chegaram
ao mesmo momento junto do velho rei para anunciar que o jovem rei e seus
animais estavam voltando da caçada. O velho rei disse:
- Impossível. Os dois portões ficam longe um do outro, é uma caminhada de uma
hora.
Mas nesse instante os dois irmãos entraram no pátio, vindos de duas direções
opostas, e ambos subiram as escadas ao mesmo tempo. O rei disse à filha:
- Diga-me qual dos dois é seu marido. São tão iguais que não sei.
Ela não conseguia descobrir e estava muito espantada, mas depois se lembrou do
colar que tinha dado aos animais. Olhou bem para eles e descobriu o fecho de
ouro em um dos leões.
- O meu marido é aquele que este leão seguir - disse, toda contente. O jovem
rei riu e disse: - É, está certo.
Sentaram-se juntos à mesa, comeram, beberam e se divertiram. Nessa noite,
quando o jovem rei foi para a cama, a esposa perguntou:
- Por que foi que você botou uma espada de dois fios na cama nestas últimas
noites? Pensei que você ia me matar...
Aí ele ficou sabendo como seu irmão lhe tinha sido
8. Organização do projeto por etapas
Bloco 1 — Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental
Foco principal
Contação de histórias, escuta, oralidade, imaginação, ilustração, reconto oral e atividades lúdicas.
Contação de histórias, escuta, oralidade, imaginação, ilustração, reconto oral e atividades lúdicas.
Recursos audiovisuais
Possibilidades de trabalho
- Roda de conversa.
- Contação do conto pelo professor.
- Exibição de vídeo infantil ou desenho.
- Conversa sobre os personagens.
- Desenho da cena preferida.
- Sequência de cenas.
- Reconto oral coletivo.
- Dramatização simples.
- Produção coletiva de cartaz.
- Criação de novo final para a história.
- Atividades de compreensão com perguntas simples.
- Roda de conversa.
- Contação do conto pelo professor.
- Exibição de vídeo infantil ou desenho.
- Conversa sobre os personagens.
- Desenho da cena preferida.
- Sequência de cenas.
- Reconto oral coletivo.
- Dramatização simples.
- Produção coletiva de cartaz.
- Criação de novo final para a história.
- Atividades de compreensão com perguntas simples.
Bloco 2 — Anos finais do Ensino Fundamental
Foco principal
Leitura, interpretação, análise dos elementos da narrativa, comparação entre conto escrito e adaptação audiovisual, produção textual e reflexão sobre os valores presentes nas histórias.
Leitura, interpretação, análise dos elementos da narrativa, comparação entre conto escrito e adaptação audiovisual, produção textual e reflexão sobre os valores presentes nas histórias.
Recursos audiovisuais
Nessa etapa, os vídeos deixam de ser apenas recurso de encantamento e passam a ser também material de análise. Os estudantes poderão comparar o texto escrito com a versão audiovisual, observando permanências, mudanças, cortes, adaptações e escolhas de linguagem.
Nessa etapa, os vídeos deixam de ser apenas recurso de encantamento e passam a ser também material de análise. Os estudantes poderão comparar o texto escrito com a versão audiovisual, observando permanências, mudanças, cortes, adaptações e escolhas de linguagem.
Vídeo 1:João e Maria - Contos Irmãos Grimm
Vídeo 2: Branca de Neve e os 7 Anões | Série Episódios com Os Amiguinhos
Possibilidades de trabalho
- Leitura compartilhada.
- Identificação de personagens, espaço, tempo, narrador, conflito e desfecho.
- Análise das atitudes dos personagens.
- Comparação entre conto escrito e vídeo.
- Debate sobre valores presentes nas histórias.
- Reconto escrito.
- Produção de uma nova versão do conto.
- Criação de história em quadrinhos.
- Produção de comentário ou resenha curta sobre o vídeo.
- Atividade em grupo sobre personagens, conflitos e mensagens da narrativa.
- Leitura compartilhada.
- Identificação de personagens, espaço, tempo, narrador, conflito e desfecho.
- Análise das atitudes dos personagens.
- Comparação entre conto escrito e vídeo.
- Debate sobre valores presentes nas histórias.
- Reconto escrito.
- Produção de uma nova versão do conto.
- Criação de história em quadrinhos.
- Produção de comentário ou resenha curta sobre o vídeo.
- Atividade em grupo sobre personagens, conflitos e mensagens da narrativa.
Bloco 3 — Ensino Médio
Foco principal
Análise simbólica, crítica, cultural e social dos contos dos Irmãos Grimm.
Análise simbólica, crítica, cultural e social dos contos dos Irmãos Grimm.
Recursos audiovisuais autorais
No Ensino Médio, serão utilizados vídeos e podcast autorais, produzidos especialmente para aprofundar a discussão sobre os contos dos Irmãos Grimm.
Esses materiais poderão abordar a origem dos contos na tradição oral, a presença do maravilhoso, os símbolos das narrativas, os conflitos humanos, as relações de poder, as escolhas dos personagens, a permanência dos contos na cultura contemporânea e suas possíveis leituras críticas.
No Ensino Médio, serão utilizados vídeos e podcast autorais, produzidos especialmente para aprofundar a discussão sobre os contos dos Irmãos Grimm.
Esses materiais poderão abordar a origem dos contos na tradição oral, a presença do maravilhoso, os símbolos das narrativas, os conflitos humanos, as relações de poder, as escolhas dos personagens, a permanência dos contos na cultura contemporânea e suas possíveis leituras críticas.
Possibilidades de trabalho
- Estudo dos contos maravilhosos e da tradição oral.
- Análise dos símbolos presentes nas narrativas.
- Discussão sobre poder, justiça, destino, medo, ambição, violência, amadurecimento e superação.
- Comparação entre versões tradicionais e adaptações modernas.
- Debate sobre a permanência dos contos clássicos na cultura atual.
- Escuta e análise do podcast autoral.
- Análise dos vídeos autorais.
- Produção de resenha crítica.
- Produção de ensaio curto.
- Seminário ou apresentação oral.
- Relação com cinema, séries, animações e cultura popular.
- Produção de podcast ou vídeo pelos estudantes.
- Estudo dos contos maravilhosos e da tradição oral.
- Análise dos símbolos presentes nas narrativas.
- Discussão sobre poder, justiça, destino, medo, ambição, violência, amadurecimento e superação.
- Comparação entre versões tradicionais e adaptações modernas.
- Debate sobre a permanência dos contos clássicos na cultura atual.
- Escuta e análise do podcast autoral.
- Análise dos vídeos autorais.
- Produção de resenha crítica.
- Produção de ensaio curto.
- Seminário ou apresentação oral.
- Relação com cinema, séries, animações e cultura popular.
- Produção de podcast ou vídeo pelos estudantes.
9. Recursos audiovisuais: vídeos, desenhos e podcast
Neste projeto, os recursos audiovisuais serão organizados de acordo com a faixa etária dos estudantes e os objetivos de aprendizagem de cada etapa.
Para a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental, poderão ser utilizados vídeos infantis, desenhos, animações e contações de histórias disponíveis no YouTube, priorizando materiais com linguagem acessível, visual lúdico e narrativa adequada às crianças.
Nos anos finais do Ensino Fundamental, os vídeos também poderão ser utilizados como recurso de apoio à leitura, permitindo a comparação entre o conto escrito e suas adaptações audiovisuais. Nessa etapa, os estudantes poderão observar personagens, cenários, conflitos, desfechos e diferenças entre versões.
Para o Ensino Médio, serão utilizados vídeos e podcast autorais, com abordagem mais reflexiva e crítica. Esses materiais poderão aprofundar a discussão sobre os contos dos Irmãos Grimm, sua origem na tradição oral, seus símbolos, seus conflitos e sua permanência na cultura contemporânea.
Dessa forma, o projeto valoriza diferentes linguagens — texto escrito, imagem, som e oralidade — respeitando a idade dos estudantes e ampliando as possibilidades de leitura e interpretação.
Neste projeto, os recursos audiovisuais serão organizados de acordo com a faixa etária dos estudantes e os objetivos de aprendizagem de cada etapa.
Para a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental, poderão ser utilizados vídeos infantis, desenhos, animações e contações de histórias disponíveis no YouTube, priorizando materiais com linguagem acessível, visual lúdico e narrativa adequada às crianças.
Nos anos finais do Ensino Fundamental, os vídeos também poderão ser utilizados como recurso de apoio à leitura, permitindo a comparação entre o conto escrito e suas adaptações audiovisuais. Nessa etapa, os estudantes poderão observar personagens, cenários, conflitos, desfechos e diferenças entre versões.
Para o Ensino Médio, serão utilizados vídeos e podcast autorais, com abordagem mais reflexiva e crítica. Esses materiais poderão aprofundar a discussão sobre os contos dos Irmãos Grimm, sua origem na tradição oral, seus símbolos, seus conflitos e sua permanência na cultura contemporânea.
Dessa forma, o projeto valoriza diferentes linguagens — texto escrito, imagem, som e oralidade — respeitando a idade dos estudantes e ampliando as possibilidades de leitura e interpretação.
Vídeos:
10. Metodologia
O projeto será desenvolvido por meio de leitura, contação de histórias, rodas de conversa, exibição de vídeos, escuta de podcast, atividades escritas, produções artísticas, dramatizações, análise de narrativas, atividades em grupo e produções individuais.
As atividades serão adaptadas conforme a faixa etária dos estudantes, respeitando o nível de compreensão, leitura e escrita de cada turma.
O professor poderá selecionar um ou mais contos para trabalhar, organizando as propostas em etapas, de acordo com o tempo disponível, os recursos disponíveis e os objetivos da turma.
O projeto será desenvolvido por meio de leitura, contação de histórias, rodas de conversa, exibição de vídeos, escuta de podcast, atividades escritas, produções artísticas, dramatizações, análise de narrativas, atividades em grupo e produções individuais.
As atividades serão adaptadas conforme a faixa etária dos estudantes, respeitando o nível de compreensão, leitura e escrita de cada turma.
O professor poderá selecionar um ou mais contos para trabalhar, organizando as propostas em etapas, de acordo com o tempo disponível, os recursos disponíveis e os objetivos da turma.
11. Recursos necessários
- Textos dos contos selecionados.
- Livros impressos ou digitais.
- Vídeos infantis do YouTube.
- Desenhos ou animações.
- Vídeos autorais.
- Podcast autoral.
- Slides.
- Imagens ilustrativas.
- Cartolina ou papel pardo.
- Lápis de cor, canetinhas e materiais de desenho.
- Projetor ou televisão.
- Caixa de som.
- Celular ou computador para gravação de áudio/vídeo.
- Atividades impressas.
- Material em Word e PDF para download.
- Textos dos contos selecionados.
- Livros impressos ou digitais.
- Vídeos infantis do YouTube.
- Desenhos ou animações.
- Vídeos autorais.
- Podcast autoral.
- Slides.
- Imagens ilustrativas.
- Cartolina ou papel pardo.
- Lápis de cor, canetinhas e materiais de desenho.
- Projetor ou televisão.
- Caixa de som.
- Celular ou computador para gravação de áudio/vídeo.
- Atividades impressas.
- Material em Word e PDF para download.
12. Produto final
O produto final poderá ser escolhido conforme a turma e a etapa de ensino:
- Mural dos contos dos Irmãos Grimm.
- Livro coletivo de recontos.
- Exposição de ilustrações.
- Dramatização.
- Roda de contação de histórias.
- Podcast literário.
- Vídeo comentado.
- Seminário.
- Cartazes com análise dos personagens.
- Caderno de atividades sobre os contos.
- Apresentação em slides.
- Feira literária temática.
O produto final poderá ser escolhido conforme a turma e a etapa de ensino:
- Mural dos contos dos Irmãos Grimm.
- Livro coletivo de recontos.
- Exposição de ilustrações.
- Dramatização.
- Roda de contação de histórias.
- Podcast literário.
- Vídeo comentado.
- Seminário.
- Cartazes com análise dos personagens.
- Caderno de atividades sobre os contos.
- Apresentação em slides.
- Feira literária temática.
13. Avaliação
A avaliação será realizada de forma contínua, observando a participação dos estudantes nas leituras, rodas de conversa, atividades escritas, produções orais, trabalhos em grupo, análises de vídeos, escuta do podcast e produções finais.
Serão considerados:
- Participação nas atividades.
- Interesse pela leitura.
- Compreensão dos contos.
- Clareza na oralidade.
- Criatividade nas produções.
- Organização das ideias.
- Capacidade de interpretar personagens, conflitos e desfechos.
- Comparação entre texto escrito e vídeo.
- Reflexão sobre valores e temas presentes nas narrativas.
- Respeito às opiniões dos colegas.
- Desenvolvimento da escrita e da expressão artística.
A avaliação será realizada de forma contínua, observando a participação dos estudantes nas leituras, rodas de conversa, atividades escritas, produções orais, trabalhos em grupo, análises de vídeos, escuta do podcast e produções finais.
Serão considerados:
- Participação nas atividades.
- Interesse pela leitura.
- Compreensão dos contos.
- Clareza na oralidade.
- Criatividade nas produções.
- Organização das ideias.
- Capacidade de interpretar personagens, conflitos e desfechos.
- Comparação entre texto escrito e vídeo.
- Reflexão sobre valores e temas presentes nas narrativas.
- Respeito às opiniões dos colegas.
- Desenvolvimento da escrita e da expressão artística.
14. Culminância
A culminância do projeto poderá acontecer por meio da socialização das produções realizadas pelos estudantes.
Sugestões:
- exposição de desenhos e cartazes;
- apresentação de recontos;
- dramatização de cenas dos contos;
- roda de leitura;
- exibição de vídeos produzidos pelos estudantes;
- apresentação de podcasts;
- seminário literário;
- mural coletivo sobre os Irmãos Grimm;
- feira literária com os contos trabalhados.
A culminância do projeto poderá acontecer por meio da socialização das produções realizadas pelos estudantes.
Sugestões:
- exposição de desenhos e cartazes;
- apresentação de recontos;
- dramatização de cenas dos contos;
- roda de leitura;
- exibição de vídeos produzidos pelos estudantes;
- apresentação de podcasts;
- seminário literário;
- mural coletivo sobre os Irmãos Grimm;
- feira literária com os contos trabalhados.
15. Fechamento do projeto
Ao final do projeto, os estudantes poderão compartilhar o que aprenderam com os contos trabalhados, destacando personagens, situações marcantes, mensagens e reflexões construídas ao longo das atividades.
A proposta busca mostrar que os contos clássicos continuam vivos, pois tratam de sentimentos, escolhas, desafios e aprendizagens que permanecem presentes na vida humana.
Os contos dos Irmãos Grimm, mesmo pertencendo a outro tempo, ainda podem dialogar com a escola atual, contribuindo para a formação de leitores mais atentos, criativos e críticos.
Ao final do projeto, os estudantes poderão compartilhar o que aprenderam com os contos trabalhados, destacando personagens, situações marcantes, mensagens e reflexões construídas ao longo das atividades.
A proposta busca mostrar que os contos clássicos continuam vivos, pois tratam de sentimentos, escolhas, desafios e aprendizagens que permanecem presentes na vida humana.
Os contos dos Irmãos Grimm, mesmo pertencendo a outro tempo, ainda podem dialogar com a escola atual, contribuindo para a formação de leitores mais atentos, criativos e críticos.
16. Baixe o material
Baixe o projeto completo com textos, atividades e sugestões de trabalho pedagógico.
Projeto Contos dos irmãos Grimm.docx
Projeto Contos dos irmãos Grimm.pdf
17. Assinatura do blog
Baixe o projeto completo com textos, atividades e sugestões de trabalho pedagógico.
Projeto Contos dos irmãos Grimm.docx
Projeto Contos dos irmãos Grimm.pdf17. Assinatura do blog
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