Introdução
O 7 de Setembro costuma ser lembrado pela imagem de Dom Pedro às margens do Ipiranga, montado em um belo cavalo e cercado por soldados. Mas quanto dessa cena corresponde ao acontecimento de 1822 e quanto foi construído posteriormente pela arte e pela memória nacional?
Feche os olhos e a imagem surge instantaneamente: um
príncipe imponente montado em um deslumbrante garanhão branco, erguendo uma
espada reluzente sob um sol dourado, cercado pelos "Dragões da
Independência" em impecáveis uniformes de gala. Esta é a versão de 7 de
setembro de 1822, encontrada em livros escolares e galerias de museus. Também é
uma fabricação total.
Público-alvo
8º ano do Ensino Fundamental.
Componente curricular
História.
Tema
Independência do Brasil e construção da memória histórica sobre o 7 de Setembro.
Questão norteadora
O 7 de Setembro aconteceu como aprendemos tradicionalmente nos livros e nas imagens?
Objetivo geral
Compreender o processo de Independência do Brasil e desenvolver uma leitura crítica das representações construídas sobre o 7 de Setembro.
Objetivos específicos
Compreender que a Independência foi um processo político e não apenas um acontecimento isolado.
Analisar criticamente a pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo.
Comparar diferentes fontes e versões sobre os acontecimentos de 1822.
Reconhecer a participação de outros sujeitos históricos no processo de Independência.
Diferenciar acontecimento histórico, memória, interpretação e representação artística.
Utilizar música, vídeos, textos e imagens como fontes de aprendizagem histórica.
Recursos didáticos
1º momento – Cavalos, mulas e lama
Vídeo “Mulas e barros na Independência do Brasil”.
Textos de pesquisa sobre a Independência do Brasil.
O "Garanhão" Era Uma Mula de Carga (e por um Bom
Motivo)
Música “A Verdade sobre o Sete de Setembro”, de Cidinha de Almeida.
Nada de cavalo branco,
nem espada a reluzir.
A Independência do Brasil
foi bem diferente do que se costuma ouvir.
No caminho havia barro,
não havia aquele esplendor.
A imagem que ficou na História
foi construinda pelo pintor
**Refrão**
Pintado em mil oitocentos e oitenta e oito,
este quadro não é registro documental.
Décadas depois da Independência,
ajudou a construir um símbolo nacional.
Com pose de grande batalha,
num cenário monumental,
a cena lembra os grandes heróis
da pintura imperial.
Na realidade da viagem,
nada daquela ostentação:
animais próprios para estrada,
roupas adequadas ao sertão.
Poeira, lama e tropeiros,
uma comitiva pelo chão.
Bem-distante da imponência
eternizada na representação.
**Refrão**
Pintado em mil oitocentos e oitenta e oito,
este quadro não é registro documental.
Décadas depois da Independência,
ajudou a construir um símbolo nacional.
Mas a história vinha antes,
o edifício começava a ruir.
Veio então o Dia do Fico:
Dom Pedro decidiu não partir.
“Se é para o bem de todos
e felicidade geral”,
ficaria então no Brasil,
num rompimento gradual.
Em agosto de vinte e dois,
duas frentes em ação:
Dom Pedro segue para São Paulo,
.enfrentando a agitação
Enquanto isso, no Rio,
Leopoldina assume uma regência.
Política, cartas e
aceleravam a Independência.
Dois de setembro se aproxima,
o Conselho entra em ação
Leopoldina e seus aliados
defenderem a separação.
Cartas seguintes para São Paulo,
era urgente decidir.
E Dom Pedro, ao recebê-las,
percebe o que estava por vir.
**Refrão**
Pintado em mil oitocentos e oitenta e oito,
este quadro não é registro documental.
Décadas depois da Independência,
ajudou a construir um símbolo nacional.
Sete de setembro chega,
mas não nasceu tudo ali.
A Independência foi processo,
muito antes do Ipiranga existir.
Entre interesses e conflitos,
decisões, disputas e poder,
muita gente fez História
para o Brasil acontecer
A verdade não diminui
o valor do Sete de Setembro.
Conhecer além da pintura
faz compreender melhor o tempo.
Não precisamos de um mito
para nossa História admirar.
É muito mais interessante
investigar e questionar.
**Refrão final**
Pintado em mil oitocentos e oitenta e oito,
o quadro virou símbolo nacional.
Mas a história não é só pintura,
nem uma cena monumental.
Entre o mito e a memória,
há perguntas para investigar.
Conheça a verdadeira história,
há muito mais para contar!
2º momento – O 7 de Setembro que conhecemos
Temos sido enganados por uma pintura a óleo de 7 metros de
largura. Por gerações, o "Grito do Ipiranga" nos foi apresentado como
um conto de fadas imperial encenado: um majestoso Príncipe Dom Pedro I em um
garanhão branco, erguendo uma espada reluzente sob um sol brilhante, ladeado
por uma guarda em impecáveis uniformes de gala. A realidade foi uma
"cagada"—tanto literal quanto figurativamente. Registros históricos e
relatos de testemunhas oculares revelam uma cena suada, caótica, e profundamente
nada glamourosa. A independência do Brasil não nasceu de um desfile
coreografado; foi uma jogada política desesperada feita na lama por um homem
sofrendo de uma violenta crise intestinal. É hora de desmontar o mito de
plástico e olhar para a verdade crua, humana, e estratégica de 7 de setembro de
1822.
Será que foi exatamente assim?
3º momento – Uma pintura feita muitos anos depois
A imagem icônica de um cavalo puro-sangue no riacho do
Ipiranga é um absurdo logístico. Para viajar do litoral de Santos ao planalto
de São Paulo, era preciso vencer a "Serra do Mar"—uma trilha
traiçoeira, estreita, aberta na densa Mata Atlântica.
A pintura Independência ou Morte de Pedro Américo é uma
obra-prima da propaganda política, não uma fotografia. Encomendada em 1888—66
anos depois do fato—foi uma ferramenta para uma monarquia em declínio
europeizar um evento tropical.
* Geometria Específica: Em 1825, autoridades mediram
exatamente 184 braças (aprox. 404 metros) a partir da ponte para marcar o
local, mas a pintura ignora essa topografia em favor de uma pose
"heroica" mais dramática, elevada.
* Participação Fabricada: Américo acrescentou camponeses e
uma multidão aplaudindo às margens para sugerir apoio popular, embora a
população local na verdade não soubesse o que estava acontecendo naquele riacho
isolado.
* Substituindo a Realidade: A monarquia precisava substituir
"lama e mulas" por "ouro e aço" para salvar seu próprio
prestígio.
4º momento – Dom Pedro além da imagem de herói
A Doença Inominável: Os Dois "Gritos"
* O Segundo Grito (4:30 PM): A declaração
"oficial" feita diante da Guarda de Honra assim que ele recuperou
alguma compostura.
A Arquiteta Estratégica: O Decreto Silencioso de Leopoldina
* Assinando a Ruptura: Ela assinou o decreto declarando o
Brasil separado de Portugal, o que significa que o país era legalmente
independente antes mesmo de o mensageiro chegar a Pedro.
* A Carta Magistral: Ela enviou um pacote de cartas a Pedro
por meio do mensageiro Paulo Bregaro, usando uma manobra psicológica de
"pinça" para garantir que ele não hesitasse.
5º momento – A Independência começou antes do grito
Enquanto Pedro forneceu o impulso, a
"Engenheira-Chefe" da independência foi Maria Leopoldina. Uma
estrategista formada pelos Habsburgo, ela estava longe da "esposa passiva,
traída" da lenda. Ela entendia o jogo de xadrez da geopolítica de uma
forma que a elite local não conseguia. Embora o mito sugira que ela assinou um
decreto formal de independência em 2 de setembro, as atas reais do governo
mostram uma realidade mais matizada: ela conduzia um Conselho de Estado que
reagia a uma crise em tempo real. Ela não ficou apenas esperando pelo marido;
ela moveu as peças.
6º momento – A Estratégia Maçônica e da Elite: Uma Revolução Conservadora
O movimento rumo à independência foi uma aposta calculada
pelas elites do "Partido Brasileiro" e do Grande Oriente do Brasil
(Maçonaria). O próprio Dom Pedro era um membro de alto escalão, conhecido
dentro da loja pelo nome secreto "Irmão Guatimozim" (em homenagem ao
último imperador asteca).
* Mantendo a Escravidão: Ao manter um Bragança no trono, a
elite garantiu a continuidade do trabalho escravo que alimentava sua riqueza.
Música :“Independência ou Morte”
Um brado ecoou num sol do meio-dia,
A história escrita por um povo forte,
Que no peito carregava a ousadia.
O laço antigo que nos prendia à terra d'além-mar
Se desfez no grito, pro mundo escutar.
(Refrão)
Independência ou Morte! Ó eco ecoou,
No sangue desse chão, a liberdade brotou!
Do Ipiranga ao horizonte, um novo amanhecer,
Brasil, teu povo livre nasceu para vencer!
(Verso 2)
O manto verde e o amarelo d'ouro,
Bandeira apressada sob o céu anil,
Uniu as raças, fez-se o tesouro,
Do gigante que acordou, meu Brasil.
Não mais colônia, agora uma nação,
Com a força da coragem e do coração.
(Refrão)
Independência ou Morte! Ó eco ecoou,
No sangue desse chão, a liberdade brotou!
Do Ipiranga ao horizonte, um novo amanhecer,
Brasil, teu povo livre nasceu para vencer!
(Ponte)
Passaram-se os anos, a luta continua,
Na busca por justiça, na praça e na rua.
A verdadeira independência se faz todo dia,
Com educação, progresso e cidadania!
(Refrão)
Independência ou Morte! Ó eco ecoou,
No sangue desse chão, a liberdade brotou!
Do Ipiranga ao horizonte, um novo amanhecer,
Brasil, teu povo livre nasceu para vencer!Brasil... terra de
luz, de amor e união,
Soberano és e sempre serás no nosso coração.
Livre! Pra sempre livre!
8º momento – Assistindo com olhar de historiador
Quais informações aparecem em mais de uma fonte e quais representam interpretações diferentes?
9º momento – Vídeo sobre a independência do Brasil
10º momento- Produção final
Propor que os estudantes produzam um pequeno texto com o título:
O 7 de Setembro além da pintura
Eles deverão explicar o que mais lhes chamou a atenção durante a investigação e por que é importante comparar diferentes fontes antes de aceitar uma determinada versão da História.
Conclusão
A grandeza da história de uma nação forjada na lama
Uma história feita por "homens de carne e osso" que sentem dor, exaustão, e doenças físicas é muito mais inspiradora do que um mito higienizado, de plástico. O nascimento do Brasil não foi uma ópera coreografada; foi uma reação confusa, urgente, e corajosa a uma "bomba" política entregue por Paulo Bregaro.
Remover o "herói de plástico" não diminui o
acontecimento; torna-o mais impressionante. A história real de 1822 é a
história de figuras de carne e osso agindo sob imensa pressão e dor física. Ela
mostra uma nação nascida da coragem calculada de uma estrategista Habsburgo e
da fúria crua, coberta de lama, de um príncipe levado ao limite.
Avaliação
A avaliação acontecerá durante todo o processo, considerando a participação nas discussões, a capacidade de comparar fontes, a interpretação dos vídeos, da música e da pintura e a produção final.
Encerramento
Estudar História não significa apenas decorar acontecimentos e datas. Significa investigar, comparar fontes, fazer perguntas e compreender como as sociedades constroem suas próprias memórias.
ASSINATURA:
Maria Aparecida de Almeida
Históras, aprendizagens e ideias para educar