D.10- O Mato
Veio o vento frio, e depois o temporal noturno, e
depois da lenta chuva que passou toda a manhã caindo e ainda voltou algumas
vezes durante o dia, a cidade entardeceu em brumas. Então o homem esqueceu o
trabalho e as promissórias, esqueceu a condução e o telefone e o asfalto, e
saiu andando lentamente por aquele morro coberto de um mato viçoso, perto de
sua casa. O capim cheio de água molhava seu
Pôs a mão no tronco de uma árvore pequena, sacudiu
um pouco, e recebeu nos cabelos e na cara as gotas de água como se fosse uma
bênção. Ali perto mesmo
sapato e as pernas da calça; o mato escurecia sem
vaga-lumes nem grilos. a cidade murmurava, estava com seus ruídos
vespertinos, ranger de bondes, buzinar impaciente de carros, vozes indistintas;
mas ele via apenas algumas árvores, um canto de mato, uma pedra escura.
Ali perto, dentro de uma casa fechada, um telefone batia, silenciava,
batia outra vez, interminável, paciente, melancólico. Alguém, com certeza já
sem esperança, insistia em querer falar com alguém. Por um instante o homem
voltou seu pensamento para a cidade e sua vida. Aquele telefone tocando em vão
era um dos milhões de atos falhados da vida urbana. Pensou no desgaste nervoso
dessa vida, nos desencontros, nas incertezas, no jogo de ambições e vaidades,
na procura de amor e de importância, na caça ao dinheiro e aos prazeres. Ainda
bem que de todas as grandes cidades do mundo o rio é a única a permitir a
evasão fácil para o mar e a floresta. Ele estava ali num desses limites entre a
cidade dos homens e a natureza pura; ainda pensava em seus pro-blemas urbanos -
mas um camaleão correu de súbito, um passarinho piou triste emalgum ramo, e o
homem ficou atento àquela humilde vida animal e também à vida silenciosa e
úmida das árvores, e à pedra escura, com sua pele de musgo e seu misterioso
coração mineral.
ARRIUCCI, Jr. Os melhores contos de Rubem Braga. São
Paulo: Editora Global Ltda, 1985.
No texto, o elemento que gera a história narrada é
(A) a preocupação do homem com os problemas alheios.
(B) a proximidade entre a casa do homem e o morro
com mato viçoso.
(C) o desejo do homem de buscar alento próximo da
natureza.
(D) o toque insistente do telefone em uma casa
fechada e silenciosa.
(E) os ruídos vespertinos da cidade, com seus murmúrios
constantes.
D.11-O Quiromante
Há muitos anos atrás, havia um rapaz cigano que, nas
horas vagas, ficava lendo as linhas das mãos das pessoas. O pai dele, que era
muito austero no que dizia respeito à tradição cigana de somente as mulheres
lerem as mãos, dizia sempre para ele não fazer isso, que não era ofício de
homem, que fosse fazer tachos, tocar música, comerciar cavalos.E o jovem cigano
teimava em ser quiromante. Até que um dia ele foi ler a sorte de uma pessoa e,
quando ela se virou de frente, ele viu, assustado, que ela não tinha mãos. A
partir daí, abandonou a quiromancia.
PEREIRA,
Cristina da Costa. Lendas e histórias ciganas. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
O trecho "A partir daí, abandonou a
quiromancia" (ℓ. 8) apresenta, com relação ao
Que foi dito no parágrafo anterior, o sentido de:
(A) comparação.
(B) condição.
(C) conseqüência.
(D) finalidade.
(E) oposição.
D.15-0 Câncer
As novas frentes de ataque
A ciência chega finalmente à
fase de atacar o mal pela raiz sem efeito colateral.
A luta contra o câncer teve
grandes vitórias nas últimas décadas do século 20, mas deve-se admitir que
houve também muitas esperanças de cura não concretizadas. Após sucessivas
promessas de terapias revolucionárias, o século 21 começou com a notícia de uma
droga comprovadamente capaz de bloquear pela raiz a gênese de células tumorais.
Ela foi anunciada em maio deste ano, na cidade de San Francisco, no EUA, em
uma reunião com a presença de cerca de 26 mil médicos e pesquisadores. A
genética, que já vinha sendo usada contra o câncer em diagnósticos e avaliações
de risco, conseguiu, pela primeira vez, realizar o sonho das drogas “inteligentes”:
impedir a formação de tumores. Com essas drogas, será possível combater a
doença sem debilitar o organismo, como ocorre na radioterapia e na
quimioterapia convencional
O próximo passo é assegurar que
células cancerosas não tornem resistentes a
Medicação são, portanto, várias
frentes de ataque .Além das mais de 400 drogas tes-
tes, aposta-se no que já vinha
dando certo, como a prevenção e o diagnóstico preco-
ce.
O conectivo “portanto”,
estabelece com as idéias que antecedem uma relação de:
(A) Adversidade
(B)
Conclusão
(C)
Causa
(D)
Comparação
(E) Finalidade
D.7-O teatro da etiqueta
No século XV, quando se
instalavam os Estados nacionais e a monarquia absoluta na Europa, não havia
sequer garfos e colheres nas mesas de refeição: cada comensal trazia sua faca
para cortar um naco da carne – e, em caso de briga, para cortar o vizinho.
Nessa Europa bárbara, que começava a sair da Idade Média, em que nem os nobres
sabiam escrever, o poder do rei devia se afirmar de todas as maneiras aos
olhos de seus súditos como uma espécie de teatro. Nesse contexto surge a
etiqueta, marcando momento a momento o espetáculo da realeza: só para servir o
vinho ao monarca havia um ritual que durava até dez minutos.
Quando Luís XV, que reinou na
França de 1715 a 1774, passou a usar lenço não como simples peça de vestuário,
mas para limpar o nariz, ninguém mais na corte de
Versalhes ousou assoar-se
com os dedos, como era costume. Mas todas essas regras, embora servissem para
diferenciar a nobreza dos demais, não tinham a petulância que a etiqueta
adquiriu depois. Os nobres usavam as boas maneiras com naturalidade, para
marcar uma diferença política que já existia. E representavam esse teatro da
mesma forma para todos. Depois da Revolução Francesa, as pessoas começam a
aprender etiqueta para ascender socialmente. Daí por que ela passou a ser usada
de forma desigual – só na hora de lidar com os poderosos.
Revista Superinteressante,
junho 1988, nº 6 ano 2.
Nesse texto, o autor defende
a tese de que
(A) a etiqueta mudou, mas
continua associada aos interesses do poder.
(B) a etiqueta sempre foi um
teatro apresentado pela realeza.
(C)
a etiqueta tinha uma finalidade democrática antigamente.
(D)
as classes sociais se utilizam da etiqueta desde o século XV.
(E) as pessoas evoluíram a etiqueta para
descomplicá-la.
D.8 - A língua está viva
Ivana Traversim
Na gramática, como muitos sabem e
outros nem tanto, existe a exceção da exceção. Isso não quer dizer que vale
tudo na hora de falar ou escrever. Há normas
(...)
sobre as quais não podemos passar,
mas existem também as preferências de determinado autor – regras que não são
regras, apenas opções. De vez em quando aparece alguém querendo fazer dessas
escolhas uma regra. Geralmente são os que não estão bem inteirados da língua e
buscam soluções rápidas nos guias práticos de redação. Nada contra. O problema
é julgar inquestionáveis as informações que esses manuais contêm, esquecendo-se
de que eles estão, na maioria dos casos, sendo práticos – deixando para as gramáticas
a explicação dos fundamentos da língua portuguesa.
Com informação, vocabulário e o
auxílio da gramática, você tem plenas
condições de escrever um bom
texto. Mas, antes de se aventurar, considere quem vai ler o que você escreveu. A
galera da faculdade, o pessoal da empresa ou a turma da balada? As linguagens são diferentes.
Afinal, a língua está viva,
renovando-se sem parar, circulando em todos os lu
gares, em todos os momentos do seu
dia. Estar antenado, ir no embalo, baixar um arquivo, clicar no ícone – mais
que expressões – são maneiras de se inserir num grupo, de socializar-se.
(Você S/A, jun. 2003.)
A tese da dinamicidade da língua
comprova-se pelo fato de que
(A) as regras gramaticais podem
transformar-se em exceção.
(B) a gramática permite que as
regras se tornem opções.
(C) a língua se manifesta em
variados contextos e situações.
(D) os manuais de redação são
práticos para criar idéias.
(E) é possível buscar soluções
praticas na hora de escrever
D.9-Animais no espaço
Vários animais viajaram pelo espaço como astronautas.
Os russos já usaram cachorros em
suas experiências. Eles têm o sistema
A cadela Laika, tripulante da
Sputnik-2, foi o primeiro ser vivo a ir ao espaço, em novembro de 1957, quatro
anos antes do primeiro homem, o astronauta Gagarin.
cardíaco parecido com o dos seres
humanos. Estudando o que acontece com eles, os cientistas descobrem quais
problemas podem acontecer com as pessoas.
Os norte-americanos gostam de
fazer experiências científicas espaciais com
Além disso, os macacos são
treinados e podem fazer tarefas a bordo, como acionar os comandos das naves,
quando as luzes coloridas acendem no painel, por exemplo.
Enos foi o mais famoso macaco a
viajar para o espaço, em novembro de 1961,
macacos, pois o corpo deles se
parece com o humano. O chimpanzé é o preferido porque é inteligente e convive
melhor com o homem do que as outras espécies de macacos. Ele aprende a comer
alimentos sintéticos e não se incomoda com a roupa espacial.
a bordo da nave Mercury/Atlas 5. A
nave de Enos teve problemas, mas ele voltou são e salvo, depois de ter
trabalhado direitinho. Seu único erro foi ter comido muito depressa as
pastilhas de banana durante as refeições.
(Folha de São Paulo, 26 de janeiro de 1996)
Entre as informações do texto
acima, uma das principais é que
(A) o chimpanzé mais famoso viajou
para o espaço a bordo da Mercury-Atlas 5.
(B) os cientistas descobrem
problemas que podem acontecer com as pessoas.
(C) a cadela Laika viajou ao
espaço quatro anos depois de Gagarin.
(D) a viagem do mais famoso macaco
para o espaço aconteceu em 1961.
(E) na nave espacial serviam
pastilhas de banana durante as refeições.
D.16-Prova falsa
Quem teve a idéia foi o padrinho
da caçula — ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família
inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um
animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.
— Mas o cachorro era um chato —
desabafou.
Desses cachorrinhos de caça,
cheios de nhenhenhém, que comem comidinha
— Vivia de rabo abanando para todo
mundo, mas quando eu entrava em casa
especial, precisam de muitos
cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse,
implicava com o dono da casa. vinha
logo com aquele latido fininho e antipático, de cachorro de francesa.
Ainda por cima era puxa-saco.
Lembrava certos políticos da oposição, que es
pinafram o ministro, mas quando
estão com o ministro, ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando cruzavam
num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado
rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto, abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.
— Quando eu reclamava, dizendo que
o cachorro era um cínico, minha mulher
brigava comigo, dizendo que nunca
houve cachorro fingido e eu é que implicava com o
"pobrezinho".
Num rápido balanço poderia
assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu
a manga de um paletó de casemira
inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava
para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável.
Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino.
Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma
espinafração da mulher.
— Você é um desalmado — disse ela,
uma vez.
Venceu a guerra fria com o
cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi
onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu
— Aí mandaram o cachorro embora? —
perguntei.
no feio vício. Fez diversas vezes
no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior.Quatro ou cinco vezes fez
nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido
novo de sua mulher.
— Mandaram. Mas eu fiz questão de
dá-lo de presente a um amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em
sua nova residência.
—
Ué... mas você não o detestava?
Como é que ainda arranjou essa sopa pra ele?
— Problema de consciência —
explicou: O pipi não era dele.
E suspirou cheio de remorso.
PONTE PRETA, Stanislaw. Para gostar de ler. Gol de padre e outras
crônicas. São Paulo: Ática, 1998.
O que gera humor no texto é o fato
de
(A) a família se apaixonar pelo
cachorro.
(B) a mulher dizer que nunca houve
cachorro fingido.
(C) o cachorro fazer pipi onde não
devia.
(D) o dono da casa achar o
cachorro um chato.
(E) o pipi feito no vestido novo
não ser do cachorro.
A
culpa é do dono?
A
reportagem “Eles estão soltos” (17 de janeiro), sobre os cães da raça pit bull
que passeiam livremente pelas praias cariocas, deixou leitores indignados com a
defesa que seus criadores fazem
de seus animais. Um deles dizia que os cães só se tornam agressivos quando
algum movimento os assusta. Sandro Megale Pizzo, de São Carlos, retruca que é
difícil saber quais de nossos movimentos “assustariam” um pit bull. De Siegen,
na Alemanha, a leitora Regina Castro Schaefer diz que pergunta a si mesma que
tipo de gente pode ter como animal de estimação um cachorro que é
capaz de matar e desfigurar
pessoas.
O que sugere o uso de aspas
na palavra “assustariam”?
(A) raiva.
(B) ironia.
(C) medo.
(D) insegurança.
(E) ignorância.
D.18-Leite
Vocês que têm mais de 15 anos,
se lembram quando a gente comprava leite
em garrafa, na leiteira ?(...)
Mas vocês não se lembram de
nada, pô! Vai ver nem sabem o que é vaca. Nem o que é leite. Estou falando isso
porque agora mesmo peguei um pacote de leite − leite em pacote, imagina,
Tereza! − na porta dos fundos e estava escrito que é pasterizado ou
pasteurizado, sei lá, tem vitamina, é garantido pela embromatologia, foi
enriquecido e o escambau.
Será que isso é mesmo leite? No
dicionário diz que leite é outra coisa: “líquido branco, água,
proteína, açúcar e sais minerais”. Um alimento pra ninguém
botar defeito. O ser humano
o usa há mais de 5.000 mil anos. É o único alimento só alimento. A carne serve
pro animal andar, a fruta serve para fazer outra fruta, o ovo serve pra fazer
outra galinha (...) O leite é só leite. Ou toma ou bota fora.
Esse aqui examinando bem, é
só pra botar fora. Tem chumbo, tem benzina, tem mais água do que leite, tem
serragem, sou capaz de jurar que nem vaca tem por trás desse negócio.
Depois o pessoal ainda acha
estranho que os meninos não gostem de leite. Mas, como não gostam? Não gostam como? Nunca tomaram!
Múúúúúúú!
Millôr Fernandes. O Estado de
São Paulo. 22/08/
Ao criar a palavra
“embromatologia” (ℓ. 6), o autor pretendeu ser
(A)
conciso.
(B)
sério.
(C)
formal.
(D)
cordial.
(E)
irônico.
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