domingo, 9 de setembro de 2012

De volta-Paulo Setúbal


De volta...* Por Paulo Setúbal

MINHA terra... Ai, com que abalo,
Com que sincera emoção,
Eu, dando rédea ao cavalo,
Margeio este fundo valo,
- Caminho do meu torrão!

Tudo, no ar, festa e brilho!
E é com a alma a vibrar,
Que eu corto as roças de milho,
Por este sinuoso trilho
Que à minha terra vai dar.

Ninhos... flores... que tesouro!
Que alegria vegetal!
À luz do sol, quente e louro,
Com seus penachos cor de ouro,
- Como é lindo o milharal!

Abelhas, asas espertas,
Num revoejo zumbidor,                                              1ª foto-Paulo Setúbal


poisam trêfegas, incertas,                                           2ª foto-Iapu-MG-Cidade que nasci e onde ainda 

Pelas corolas abertas                                                   hoje mora minha mãe e irmãos e família.
Das parasitas em flor...              

Na mata, de quando em quando,                                 3ª foto- Caratinga-Onde moro .
Soa o trilar dos nambus.
Os pintassilgos, em bando,
As frontes sonorizando,
Gorjeiam em plena luz!

E eu sigo... Vou enlevado
Nesta poesia sem fim.
Bem sinto, de lado a lado,
Que um trecho do meu passado
Em tudo ri para mim!

Quem há, aí, que compreenda
Minha brusca, alta emoção,
Ao ver, ao longe, a fazenda,
Com sua chata vivenda,
Surgir no azul do espigão?

Aqui, nesta boa roça,
São todos amigos meus.
Por isso, a cada choça,
Toda gente se alvoroça
Para vir dizer-me adeus.

É o Quincas! É o Zé Colaço!
O Juca Elias! Nhô João!
Todos eles, quando eu passo,
Num longo, num rude abraço,
Apertam-me ao coração!

E aquele? Céus! Nhô Claudino!
O olhar em pranto ele traz...
É um velho, meigo e franzino,
Que outrora me viu menino,
E que hoje me vê rapaz...

Chego... Que festa infinita!
Como eles me querem bem!
Até a pobre da nhá Rita,
Com seu vestido de chita,
Corre a abraçar-me também!

Dentro, sem mais demora,
Traz-me a crioula um café.
Ai! É a mesma sala de outrora,
Com a mesma Nossa Senhora
Ao lado de São José!

Aqui, em meio a isto tudo,
Eu - que ironia cruel! -
Tenho o desejo sanhudo
De espedaçar o canudo
Com a carta de bacharel,

E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi...
• Paulo Setúbal (P. S. de Oliveira), advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista, nasceu em Tatuí, SP, em 10 de janeiro de 1893, e faleceu em São Paulo, SP, e, 4 de maio de 1937. Eleito em 6 de dezembro de 1934 para a Academia Brasileira de Letras, sucedendo a João Ribeiro, foi recebido em 27 de julho de 1935, pelo acadêmico Alcântara Machado.

Um comentário:

  1. M. Ap. de Almeida, vc é maravilhosa. Estão faltando publicações importantes como as suas. Quais outras que vc já fez?

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