O Sapo tonto
Numa aldeia muito pequena, perdida para lá dos vales e montes, existe uma árvore centenária que serve de refúgio secreto a uma família de sapos.
Os Alegrias, como são conhecidos pelos vizinhos, levam os dias de inverno soalheiro escondidos no refúgio secreto, mas sempre, sempre a cantarem. Cruac! Cruac! Cruac!
Ora canta um, ora canta outro, outras vezes cantam em coro, e às vezes até cantam à desgarrada. Uma orquestra digna de se tirar o chapéu.
Quando cai a noite, reúnem-se no seu espaço secreto para dialogar, e distribuir as tarefas, pertencendo aos sapos o horário noturno. De repente, todos fizeram silêncio. O sapo mestre acabara de chegar.
- Boa noite! - Disse o mestre.
- Boa noite, mestre sapo! - Disseram todos em coro. É assim que é tratado entre todos. Ele organiza toda a vida familiar, aconselha, transmite opiniões. Conclusão: ele é o patriarca da família Alegria.
- Ora vamos lá ver qual a ordem de trabalhos que tenho para vocês. - Disse o mestre, apresentando a ordem de trabalhos desse mesmo dia. - Esta noite tu vais para ali. Tu vais para aqui. Vocês os dois para acolá - E assim sucessivamente as tarefas iam sendo distribuídas. Até que chegou a vez de o sapo Déo saber qual seria a sua tarefa. Ele era o mais pequenino da família Alegria, muito irrequieto, tinha um ar pomposo e muito autoritário. - Déo, vais passar a ronda à horta do senhor Joaquim. Caiu-lhe uma praga de lagartas na horta que estão a destruir as suas couves. - Disse o mestre.
- Eu? Não quero ir! Não gosto de andar de noite e para além do mais não vejo bem. - Ainda ele não tinha acabado a frase, e já o mestre lhe respondia.
- Isso são só desculpas! – Já te disse várias vezes que não podes andar de dia, mas tu és teimoso e tonto! - Ralhou o mestre com ele.
Muito contrariado, lá foi o sapo Déo para o serviço que lhe tinha sido destinado. Estava uma noite negra e muito fria. Somente se ouviam os ralos e os mochos cantando a canção da época, que já toda a vizinhança conhecia de cor e salteado.
Chegado à horta do senhor Joaquim, lá se encontravam as célebres couves que a partir daquela noite ele tinha que limpar dos bicharocos.
Língua fora, língua dentro, ia comendo as lagartas e todo o tipo de bichinhos que fora encontrando. Com tanto bicho que comeu, não tardou a ficar cheio e com sono, e pensou para com ele: “hoje não vou regressar a casa, faço a cama debaixo desta folha de couve e vou esperar que o dia desponte, para saber a razão de não ser permitido andar de dia.” Pensando isto, o sapo Déo adormeceu.
Passaram as duas horas da madrugada. Entretanto, o sino da aldeia tocou as quatro badaladas, e todos os sapos regressaram ao refúgio secreto. O último a entrar fechou a porta, mas nem sinal do sapo Déo.
- Algum de vós viu o sapo Déo? – Perguntou o mestre.
- Não! - Disseram uns.
- Eu vi-o lá muito longe! – Respondeu outro.
- Talvez ele esteja perdido. – Disse um dos sapos.
-Talvez! - Disse o mestre depois de um curto silêncio. Por precaução, vamos à procura dele.
Tornaram a sair. Organizaram-se dois a dois e iniciaram as buscas. Procuraram na ribeira, pois tinham encontrado algumas pegadas que se dirigiam para a água, não estivesse ele a afogar.
Foi falso alarme. Um dos pares de sapos subiu uma das muitas árvores, pois o Déo poderia estar preso num ramo de alguma árvore. Um outro grupo foi até à horta, e da entrada gritaram pelo seu nome. - DEEOOO! DEEOOO! Estás aí? - Não obtiveram resposta, pelo que todos regressaram ao refúgio.
- O que terá sido feito dele? – Interrogaram uns.
- Qual a razão de o mestre ter ordenado a ida do sapo Déo até à horta do senhor Joaquim? – Interrogaram outros.
- Por hoje já chega. Vamos descansar, e amanhã retomaremos as buscas. Não podemos esquecer que a madrugada já vai longa, e não tarda para que o sol apareça, o que para nós não é nada bom, pois não convém ficarmos expostos ao Sol. - Após o mestre terminar o seu diálogo, não houve mais palpites. Cada um enrolou-se no seu cobertor, e dos sonhos fizeram a almofada.
Entretanto, na horta do senhor Joaquim, o sapo Déo dormia um sono profundo. O sol aquecia e convidava para um baile de insetos em redor das couves. Bzzzz era o som mais ouvido naquele local. Um inseto mais atrevido pousou em cima do Déo, acabando por acordá-lo.
- É lá! Tira-te de cima de mim! – Disse o Déo zangado. Ao abrir os olhos ficou confuso e encantado ao mesmo tempo.
- Ah! Ah! Mas onde é que eu estou? Com tanta flor, tudo tão colorido, bonito e brilhante? Será que estou no paraíso? - De repente, o sapo Déo recordou a noite anterior, mas não ficou assustado. - É hoje! É hoje que vou explorar tudo à minha maneira, sem ter alguém que me chateie. - Disse o sapo Déo pulando de felicidade. Dito isto, lá foi ele subindo e descendo árvores para conseguir ver mais além. Ora cheirava uma flor aqui, arrancava uma pétala ali, e com o passar do tempo começou a sentir algum cansaço, mas não fez caso. O que lembrou ele de fazer? Subiu para cima de uma árvore, e aí ficou o dia todo ao sol. Umas vezes de peito para cima, outras vezes de costas para baixo. O que importava era aproveitar aquele momento.
- Mais logo, quando chegar ao pé dos meus colegas, vou contar-lhes as minhas aventuras! De certeza que eles nem vão acreditar! Ficarão vermelhos de inveja! - Pensava ele para consigo mesmo.
No entanto, nem ele imaginava que quem ficaria vermelho era ele. Chegado o fim da tarde, e já farto de estar ao sol, estava na hora de voltar ao refúgio, mas começou a sentir-se muito inchado, cheio de bolhas, com muita dificuldade em andar e qual não foi o seu espanto! Tinha mudado de cor! Estava vermelho!
O sapo Déo ficou muito assustado. Tentou chegar o mais rápido possível ao refúgio mas a pele estava tão seca e arreganhada, que por cada salto que tentava dar parecia-lhe que o seu corpo ia partir.
- Isto não é normal! Mas o que é que eu tenho? Só pode ter sido alguma praga que o mestre me rogou! - Ia dizendo ele para consigo mesmo no caminho de regresso.
Já o sol começava a pensar em ir dormir, quando o Déo chegou ao refúgio secreto. Uma vez lá dentro, todos deram pulos de alegria.
- Mestre! – Gritaram todos num grande alvoroço. – O Déo apareceu!
- Mas que barulho é este? O que é que se passa? – Perguntou o mestre, ao mesmo tempo que encara com o sapo Déo. O mesmo ficou pasmado! - Mas como é que tu vens? O que é que te aconteceu? Parece que foste picado por um enxame de abelhas! Onde é que tu te meteste? – Perguntou-lhe o mestre. A surpresa foi tão grande por parte de todos, que o Déo nem sabia como responder a tanta questão.
- Pois... Adormeci e quando acordei já era de dia. Como vi tudo tão bonito aproveitei para passear e apanhar sol, mas sem dar por nada fiquei neste estado! Estou muito arrependido com o meu comportamento! Deixei-me ir atrás do meu autoritarismo e não soube ouvir a palavra do mestre. Peço-lhe perdão pela minha atitude! - Dito isto, Déo desata a chorar desalmadamente.
- Agora não há tempo para arrependimentos! - Disse-lhe o mestre. – O que tu aí tens é um grande escaldão! Avisei-te várias vezes, mas tu nunca me deste atenção! Agora tens aí o resultado! Sofres na tua própria pele o peso da tua atitude! - O mestre olhou para todos os sapos ali presentes. - Espero que sirva de lição para todos. Mas agora não há tempo a perder! Levem o vosso amigo para o quarto e ajudem-no a deitar, e assim que a noite chegar, alguns de vós devem ir ao vale para colherem folhas do cato de aloé vera.
- Folhas de aloé vera?! O que é isso? Para que servem? - Questionou repentinamente um sapo. - O patriarca, já mais calmo, respondeu-lhe muito pausadamente.
- Sabes meu filho, já vou com um século de vida, e os meus antepassados tudo me ensinaram, e eu tento passar para vocês as lições que recebi deles! Mas às vezes depende da vossa abertura para aprender. – O mestre continuou a explicação - A folha do cato depois de aberta ao meio deita um líquido que em contacto com a pele do Déo vai refrescar e sarar aquelas bolhas.
- E vai deixá-lo bonito como ele era? – Tornou-lhe a perguntar um dos presentes.
- Sim, meu filho! Vai ficar bonito duas vezes.
- Hum! Agora não estou a perceber! – Alvitrou o sapo.
- Mas eu explico-te! – Respondeu-lhe o mestre – Vai ficar bonito por fora e por dentro, porque é com as asneiras que se aprende, e o Déo aprendeu que não deve desprezar os conselhos de quem sabe mais.
- Agora percebi! Obrigado pela explicação! – O sapo curioso agradeceu ao mestre e saltou de alegria para os seus afazeres.
Passadas algumas semanas e já com o Déo totalmente recomposto, tudo voltou ao normal. O sapo Déo não parecia o mesmo! Tornou-se um sapo responsável e era ele agora que muitas vezes aconselhava os outros.
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Escrito Por: Rosa Rodrigues
Ilustrações: Rosa Rodrigues
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