domingo, 31 de março de 2013

A galinha da tia Micaela






                           A galinha de Tia Micaela

          Era noite de mutirão.
          Doze ou quinze homens trabalhavam ao re-
dor de enorme lampiões.
          Na cozinha, tia Micaela tirava as primeiras
fornadas de broas de fubá, e o cheiro de café enchia
as salas até as varandas.
          O vozerio dos moços misturava-se com o es-
talido seco das palhinhas dos cestos que as mulheres
teciam num canto.
          No meio deste movimento, Joaquim Sara le-
vou as mãos ao bolso, apalpou-o, olhou o chão ao 
redor de se e exclamou:
          -Meu relógio!Perdi o meu relógio.Ainda há
pouco, uns dez minutos, estava aqui no meu bolso.
          Todos se levantaram e puseram-se a procurar
no chão, entre as palhinhas, em cima das mesas.
          Alguns olhavam para Colatino, conhecido como mentiroso e desonesto.Impossível achar o la-
drão!
         Mas lá veio tia Micaela com uma galinha sob
sua blusa.
          Era uma galinha preta, de olhos vivos e bri-
lhantes que lançavam reflexos vermelhos à luz trê-
mula dos lampiões.
          Tia Micaela pachorrentamente pegou um tamborete e foi assentar-se no canto mais escuro da
sala.
          Colocando a galinha no colo, pediu que todas
as pessoas presentes fizessem fila e que, uma após a
outra ,passassem a mão nas costas da galinha.
          Todos , calados, olhavam uns para os outros,
como se quisessem indagar por que a galinha havia
de apontar o ladrão.Dar-se-ia o caso de a galinha
estar enfeitiçada e de se pôr a cantar quando sentis-
se sobre as suas costas mão do ladrão?
          Começou o desfile.
          Cada um, ao pôr a mão sobre a galinha, para-
va de respirar, com medo de que ela viesse a gritar.
          Chegou a vez do Colatino.
          Pálido e trêmulo ,Colatino fez o mesmo que os outros.
          Mas nada!
          Nem para ele, nem para ninguém a galinha
abrira o bico.
          Afinal , a tia Micaela pôs a galinha no cesti-
nho e, pachorrentamente, foi buscar uma candeia.
           Voltou e, chamando outra vez um por um,
começou a examinar a palma das mãos.
          Todas estavam pretas, menos a de Colatino
que revelou, assim, sua falta.
          Tia Micaela havia passado nas costas da gali-
nha fuligem engordurada, para que cada mão se tor-
nasse preta ao passar sobre ela.
          Colatino, que não tinha a consciência em paz,
fingiu apenas passar a mão não tocou nas penas da 
galinha.
          Ah!Quem pensa esconde uma falta?

Um comentário:

  1. Nossa, lembro que li está fábula em um velho livro de minha avó há muitos anos atrás, e agora relendo veio me a mente as palavras "pachorrentamente" e reviveu aquele tempo longínquo. Obrigado.

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